Autor: Paulo Ferreira

Milford Sound

Milford Sound

A minha aventura pela Nova Zelândia, com o objectivo de produzir um documentário curto que fosse capaz de prender a atenção das pessoas para que possam perceber que a nossa única casa (a Terra) está a viver alterações profundas, previa uma viagem de cerca de 15 dias. Quatro deles eram para a viagem entre Portugal e aquela região do globo. Por isso só me restavam apenas 11 dias para concretizar o que havia planeado com a devida antecedência. Contudo, previa a possibilidade das condições climatéricas serem adversas e impossibilitarem o meu trabalho, nos diversos locais que pretendia visitar.

Não demorou muito tempo para ser confrontado com esta adversidade. A estação do ano que havia escolhido, era propicia a estas condições climatéricas. Milford Sound revelou-se um deles.

Milford Sound fica bem no coração do Parque Nacional de Fiordland, na Nova Zelândia. Para lá chegar é preciso percorrer uma estrada nacional de várias centenas de quilómetros. Cumprindo o meu plano, saí de Invercargill bem cedo e o destino era esse lugar que eu almejava conhecer e registar em timelapse. No final da estrada e depois de atravessar uma zona muito montanhosa, enveredar por túneis e desfiladeiros muito apertados, ficar cara-a-cara com um Kea (um papagaio muito inteligente que habita aquela região), surge diante de mim a imensidão das montanhas de Milford Sound. Um lugar mágico, onde o céu e a Terra se unem num só. O problema era que eu não via o céu. O dia estava muito cinzento e chovia intensamente. A água jorrava das montanhas e eu ali, impossibilitado de fazer o meu trabalho, limitei-me a contemplar o que os meus olhos não viam. Mas não desisti.

Comecei de imediato a preparar uma segunda oportunidade e para isso era necessário alterar o plano. Rapidamente defini um plano B. A ideia era regressar a Invercargill. Na manhã seguinte e cumprindo o plano definido, que me levaria a Wanaka, teria obrigatoriamente de passar novamente por Milford Sound. E assim foi.

Cansado, com poucas horas de sono, na manhã seguinte regressei a Milford Sound. Até parecia que já conhecia a estrada e nenhum Kea ousou interferir no meu ojectivo, a não ser um controlo de velocidade que me fez perder algum tempo, pois havia que prestar atenção à forma educativa com que as autoridades locais me abordaram. Era 100 e não 120! Aceitei e pedi desculpa.

Voltei ao lado esquerdo da estrada e uns quilómetros mais à frente, tudo estava muito diferente! Eu já via o céu, aqui ou ali pintado por algumas nuvens. Até apetecia subir ao Mitre Peak (cerca de 1.700 m de altitude) para tocar o céu. Um pico assombroso, ali bem diante de mim. Rapidamente me muni da dolly “Stage One” e iniciei o plano de timelapse tão desejado, tentando com que nenhum mosquito ousasse pousar na objectiva.

Apesar de todas as adversidades, a persistência e a perseverança haviam dado frutos. Fruto esse que poderá ser visto quando divulgar o meu próximo filme sobre a Nova Zelândia.

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Cape Reinga

Cape Ringa

Recentemente estive na Nova Zelândia com o objetivo de produzir um documentário curto, à semelhança de “Nordlys” e “Patagónia – A Ponta Do Mundo“. Confesso que fiquei fascinado pela região.

Para quem, tal como eu, gosta de contacto com a natureza, encontra naquela região do globo, um lugar para fotografar, caminhar, ler um livro, escrever, viajar, ver coisas novas, mas, acima de tudo, viver a vida a “baixa velocidade” ou seja, a possibilidade de sentir-se vivo.

Na fotografia, o farol de “Cape Reinga” foi o primeiro sitio onde fotografei e consequentemente registei planos de timelapse. Este foi o local escolhido por mim, para dar inicio a uma aventura que me levaria a percorrer as duas ilhas da Nova Zelândia.
O farol foi a minha âncora para encontrar a coragem e vencer os desafios e, ao mesmo tempo, o guia que me apontou o caminho que iria percorrer nos dias seguintes.

Eu sabia que “Cape Reinga” era um local sagrado, de grande importância espiritual para o povo maori. É dali que os espíritos partem para o paraíso. Sente-se o chamamento das ondas do mar nas arribas. Apesar de tudo, ali fiquei, firme, na encosta da arriba, de “mãos nos bolsos” a imaginar o passado de um povo que usava a “Haka” como uma espécie de “grito de guerra” e dança ensaiada para afugentar o inimigo, mostrando assim que não estavam com medo dele.

E, de facto eu não tive medo, antes pelo contrário, encontrei ali forças para vencer todos os desafios que viriam a surgir nos dias seguintes.

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El Chaltén – Fitz Roy

Fits Roy – El Chaltén

Patagónia – The Tip Of The World – Levantei-me num ápice e engoli o pequeno almoço ainda mais rápido. Lancei-me desenfreadamente para o Monte Fitz Roy ou, como lhe chamam na região, Cerro Chaltén, tal como à povoação. É tão só uma das maiores montanhas localizadas na fronteira do Chile com a Argentina. Apesar da sua altitude relativamente baixa, cerca de 3.375 metros, é considerado por muitos alpinistas profissionais um desafio quase impossível de escalar. Percorri o centro da povoação a pé. O esforço acumulado dos dias anteriores ia cobrando os seus efeitos no aparente aumento de peso da mochila que carregava às costas. De mapa na mão, identifiquei o ponto de partida perfeitamente visível, pois tratava-se de um pórtico em madeira de cores vivas e garridas vistas a grande distância. Na manhã soalheira algumas nuvens bailavam ao sabor da leve brisa que soprava continuamente. O local, solene, mereceu fotografia de recordação. Desfiz-me de uma camisola, que o calor já se fazia sentir, acondicionei corretamente a mochila às minhas costas e avancei confiante para a encosta rochosa mesmo por cima de mim. Por se revelar mais seguro, optei por realizar um trajeto linear de aproximadamente 24 quilómetros, apesar de haver dois caminhos alternativos com base em pontos de partida diferentes, mas que se unem num só já muito perto do acampamento Poicenot. Cautela e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém…

Ao longo de todo o percurso estão identificados alguns miradouros de caráter oficial, simplifiquemos; no entanto, decidi aventurar-me fora do trilho em busca de pontos altos rochosos, aqui e ali surgidos por cima da copa das árvores. O objetivo era conseguir fotografias e planos em timelapse que retratassem o ondular das neblinas matinais junto aos picos
das montanhas. Passado o acampamento, desço ao vale para chegar ao rio. Um breve relance de olhar e a perceção das ótimas condições de luz daquela manhã. As neblinas dançavam em redor dos picos mais altos, a água corria límpida e gélida o bastante para me despertar os sentidos quando refresquei a cara. A brisa fresca da manhã na pele e o regresso ao contacto com os elementos – não há nada mais retemperador. Fiz o registo de dois planos em timelapse, um vertical e outro horizontal, com o objetivo de os conjugar mais tarde. O rio corria sem sossego por entre as pedras do vale. Em redor, árvores vestidas com os tons de outono cobriam todo o vale até meia encosta, onde já surgia a neve e, de súbito, imponente, o maciço rochoso do Fitz Roy. O pico, fantasmagórico no seu incessante jogo de escondidas com as névoas. Nada substitui a experiência pessoal, cunho marcado da vivência in loco. O registo mecânico permite a guarda, para memória futura, de cada detalhe, elemento, pormenor. É um resgate feito ao passado, transmitido em herança às gerações vindouras. Mas a memória visual, mesmo que falível, mesmo que roída pelo tempo, é feita da vivência pessoal, intransmissível, incorruptível na essência – eu vi o Fitz Roy!

Posto a caminho, atravessei rio Blanco para chegar ao último acampamento antes de atingir a base do Fitz Roy: Camping Rio Blanco. O sol ia alto e o calor inclemente era um braseiro que trazia sob a roupa; estava a ser tomado pelo cansaço. Obriguei-me a parar, descansar e a beber água, a hidratação é fundamental e eu não me esqueci dela durante os dias anteriores. Um painel de madeira ali perto informava um quilómetro para chegar ao fim do trilho e sugeria ao leitor que verificasse o seu estado físico. Agora??? Depois de 11 quilómetros percorridos é que sou alertado para isto? Vim eu do outro lado do mundo para me atirarem este desaforo à cara? Se tinha chegado até ali, iria certamente percorrer o último quilómetro tal como havia feito os anteriores. Qual é a dificuldade?, atirei, altivo, em modo desafiador aos deuses da fortuna. Por um mísero quilómetro… Por quem me tomam? Resoluto, a mastigar quezília, fiz-me à vida que não me atenho a pormenores. De súbito… estanquei. As árvores tinham desaparecido e o que se plantava diante dos meus olhos exauriu-me todas as forças: o trilho seguia montanha acima numa inclinação que de acentuada não tinha nada – tinha tudo! Como uma cobra, serpenteava a encosta. Ah!, pois… admiti a custo: o tal quilómetro em falta!

Sensivelmente a meio do trilho entrava-se em zona de neve e o esforço para continuar estava a ser colossal. A cada passada a mochila aumentava de peso e a falta de aderência das botas ao piso era uma constante. Por antecipação comecei a temer a descida: por aquele andar, iria a deslizar encosta abaixo. Delegando uma nova função no tripé, usava-o agora como suporte para saltar de pedra em pedra. Tremendo o esforço para tremenda subida. Nunca nas minhas caminhadas havia passado por um esforço tão grande para percorrer apenas um quilómetro. O desânimo arribou áspero já perto do fim do trilho, quase a atingir o cimo do monte coberto pela neve. Estava estafado, exausto do esforço e as condições climáticas estavam a mudar, com o vento muito mais forte e o frio muito intenso. Apenas sentia a minha cara por aposição dos dedos, bem prensados na carne, tão gélida estava. Eu queria desistir. E queria continuar. Mas já não tinha forças. Estava na mais completa solidão, não o sentido da ausência de alguém a nosso lado, mas outro muito mais intenso, absoluto e íntimo: o confronto interior. Desistir não significava apenas a falência do projeto, era eu próprio quem desistia, falhava. E isso eu não queria para mim. Sosseguei a mente, relaxei… e lá fui montanha acima de olhos postos na biqueira das botas, procurando forças na alma. Pelas minhas contas faltariam cerca de 100 metros para o topo. Em regime mecânico ausente de qualquer emoção percorri o que restava do trilho num declive cada vez menos acentuado. Estava a chegar e, aos poucos, ia recobrando o ânimo. O topo que me aguardasse porque eu ia a caminho. Em triunfo venci o cansaço e ergui a face para contemplar a minha vitória… a montanha é impiedosa e exige cruelmente a sua parte; ninguém habita a montanha sem que esta o permita – diante dos meus olhos, poços fundos para o meu íntimo, o trilho prosseguia atroz por mais alguns metros, até ao objetivo final. Esforço denodado este, o de querer vencer.

Quinze minutos depois, a Laguna de Los Tres. Naturalmente bela, de um verde que emergia da alva neve que tudo cobria como um manto estendido. Que visão fantástica, incrivelmente natural, deslumbrante. A neve levantada do chão pelo vento forte estilhaçava- se de encontro à minha cara em minúsculas e afiadas lâminas de gelo, mas eu não as sentia. Havia cumprido o meu objetivo e agora era o momento de o usufruir. Fotografei durante cinco minutos, aproximadamente, até começar os preparativos para registo em timelapse. Estabilizado o tripé no chão coberto por neve e agarrando–me a ele para que não oscilasse com o vento forte, ali fiquei durante cerca de 10 minutos, estático o mais possível. As nuvens surgiam vindas de trás da montanha e rodeavam o cume mais alto do Fitz Roy num constante vai e vem que parecia não ter fim. Maravilhado, colei os olhos postos no enorme maciço rochoso.

Cento e cinquenta fotografias registaram o momento. Objetivo cumprido. Estava na hora de encetar o regresso ao ponto inicial. Feliz, mas gelado. De olhos postos no Fitz Roy iniciei a descida, desconfiado. Perturbava-me a sensação de falta, de ausência, como se deixasse ao abandono não uma peça do equipamento, mas emoções, estados de alma, intangíveis na essência. É como um permanente estado de alerta para um perigo iminente, mas cuja origem se desconhece e nos obriga a uma obsessiva atenção. Aquela sensação acompanhou-me até ao acampamento, próximo da tabuleta que alertava para o estado da condição física. O mais correto seria acrescentar “… e o anímico também”.

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Baía Ensenada

Baía Ensenada

A primeira paragem foi na Bahía Ensenada junto ao canal de Beagle, marcava o meu relógio as 11h00m. A pequena enseada abriga o posto dos correios, uma construção muito rudimentar em madeira com uma pequena chaminé de onde saía algum fumo, repleta de bandeiras e sinalética argentina como que a marcar a sua posição no território e de onde é possível ver do outro lado do canal, o Chile.

Atrevi-me a ir vê-lo mais de perto e percorri o pequeno pontão de madeira que suporta o posto dos correios e se prolonga até bem dentro da enseada. Reparei numa inscrição que dizia “Unidad Postal Fin del Mundo”. Perguntei a mim próprio por que razão estaria ali um posto dos correios: não havia ninguém nas redondezas e o local parecia saído de um conto de fadas.

Admirei o canal, as montanhas do lado do Chile e encantei-me com as inscrições em vários idiomas que se podiam ler um pouco por toda a parte exterior da pequena casa. Afinal, ali não era partida, mas chegada dos sete cantos do Mundo.

Não muito longe dali, no lado direito da enseada, um pequeno miradouro por debaixo do arvoredo de Lengas que se curvava para cima da água pareceu-me o cenário ideal para registar um timelapse. Um pequeno trilho ladeando a água do canal conduzia até ao miradouro.

O vento estava forte e a água bastante agitada, o que causava uma gélida sensação de frio; no entanto, os cerca de 100 metros foram percorridos rapidamente, mesmo carregando a mochila e o tripé que pesavam uns bons 15 quilos.

No local, percebi que estava bem acima do nível da água e havia uma pequena ravina em pedra bem na minha frente. A água talvez distasse uns seis metros de mim. Por um lado, era bom, pois as gotículas provenientes das ondas e que eram elevadas pelo vento não molhariam a objetiva; por outro, sentiria mais o vento.

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Ushuaia

Ushuaia

Depois de quase um ano de planeamento e preparação eis que chega o mês de Abril e com ele a possibilidade de conhecer mais de perto uma região que remete para o imaginário do contacto com a natureza e a vida selvagem, a Patagónia, a ponta do Mundo.

Associamos a Patagónia a imagens de enormes planícies, típicas da região meridional da América do Sul, ricas em pastagens polvilhadas por tufos dourados, a que em cada curva da estrada surgem animais selvagens por entre cercas que o Homem fez questão de erguer, como demarcações definitivas obrigadas por uma vizinhança conflituosa.

É esta mesma região, separada entre si por muitos quilómetros de trilhos e estradas, planícies varridas pelo vento, que acolhe montanhas íngremes, lagos gelados, enormes glaciares e a Lenga, árvore representativa do bosque andino patagónico que pelo tom da sua folhagem na incidência da luz solar faz acreditar que aquela é, de facto, a Terra do Fogo.

Aqui, estão presentes todos os elementos da natureza – terra, água, ar e fogo. É esta terra, dividida pela enorme cordilheira andina, que apresenta as duas faces da ponta do Mundo: inóspito e ao mesmo tempo completamente irresistível.

Saído de Portugal fiz escala no Rio de Janeiro, Brasil, para visitar parte da minha família que há décadas lá vive. Cada reencontro é, sempre, uma descoberta.

Dois dias depois, rumei a latitudes mais a sul: uma escala técnica em Buenos Aires, Argentina, e rapidamente estava a caminho de Ushuaia, a terra do fogo, dos pinguins e do canal de Beagle. Não resisti a imaginar-me a bordo de um qualquer casco à deriva no Atlântico e varrido pelos ventos alísios.

Ushuaia foi o primeiro pedaço de terra que pisei na Patagónia. O seu nome provém do idioma indígena yagan (ushu + aia) que significa baía profunda. Assaltou-me a sensação de que, afinal de contas, eu não passava de um simples colono, mas agora munido de uma câmera fotográfica e que, tal como os antepassados que a habitaram, chegava à cidade mais austral do planeta.

Seria aqui em Ushuaia que viveria intensamente os dias seguintes.

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Nordlys

Nordlys

Terra, o nosso planeta.
É o único planeta no nosso sistema solar, conhecido por albergar vida.
Todas as coisas que precisamos para sobreviver são-nos fornecidas sob uma fina camada de atmosfera que nos separa do vazio inabitável do espaço.
A Terra é composta por sistemas complexos e interactivos que são muitas vezes imprevisíveis.
Ar, água, terra e vida, incluindo os seres humanos, unem forças para criar um mundo em constante mudança e que nos esforçamos por entender.
Consegues imaginar a nossa Terra sem os seres humanos? Olha para estas paisagens!
Contempla a sua beleza! Contempla-a com paixão.
Esta é a Terra, a nossa casa, o nosso lugar… Por favor, mantém-na viva! Olha para ela com paixão, com a paixão de quem ama e preserva-a!
O nosso planeta está numa rápida rotação e o núcleo de níquel-ferro fundido dá origem a um campo magnético, que o vento solar distorce em forma de lágrima.
O vento solar é uma corrente de partículas carregadas, continuamente ejectadas do sol.
O campo magnético não se desvanece para o espaço, mas tem fronteiras bem definidas.
Quando as partículas carregadas do vento solar são capturadas pelo campo magnético da Terra, colidem com as moléculas de ar acima dos polos magnéticos do nosso planeta.
Estas moléculas de ar, em seguida, começam a brilhar e são conhecidas como as auroras, ou as luzes do Norte e do Sul.
Esta é a Terra, a nossa casa, o nosso lugar… Por favor, mantém-na viva! Olha para ela com paixão.
Com a paixão de quem ama… e preserva-a!
Desliga as luzes e desfruta de um fenómeno único na Terra, com a paixão daqueles que amam.
E a Terra é a nossa nave espacial, o nosso globo bonito, delicado, dançando elegantemente em torno do sol para uma eternidade finita. É a nossa linda bola de água e ar. É tudo o que temos e tudo o que poderemos ter. Compete-nos a nós preservá-la e protegê-la. Porque esta é a nossa única casa. Nosso planeta… Nossa Mãe… Nossa… Terra.
Bem-vindo a casa.

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Picos de Europa

Picos de Europa

Disseste que não seria capaz, que a montanha escolhe os seus na vida e na morte.
Disseste:
“Apenas os eleitos aspiram a conhecer a montanha”.
“Apenas eles são ungidos pelo óleo da sabedoria” – disseste – e eu, sorri.
Falei-te das manhãs claras e dos frios glaciais, das estrelas e das flores, dos rios e das pedras, dos animais.
Falei-te do silêncio que é a voz da montanha e do sussurro eterno do bosque – inquieto rumor, queixume das árvores, lamento do vento.
Ouves este som? Tão terno, etéreo.
No entanto, capaz de furar o mais duro rochedo, subir ao ninho da águia beijar a toca do coelho.
Guiar rios da nascente à foz.
Abrir rombos de espanto na alma contemplativa quando alvoradas mansas se espalham, lentamente, pela erva fresca de orvalho e os pássaros iniciam um bailado majestático trinando delírios.
Todos os dias!
Todos os dias, sem falhar um, o encantamento se repete: o abeto, a truta, o esquilo, o colosso da montanha.
E todos os dias se renova o espanto, húmus da minha alma, parceiro da condição que é a nossa, viajantes improváveis.
Sorris.
E a crença que és em mim ilumina a certeza do caminho na crista, tocando o céu, furando nuvens de algodão, na vontade resoluta do invisível, que o mais apertado dos abraços celebra.
Morra eu neste instante, e o caminho está feito.

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