Patagónia – El Charpitero Gigante

El Charpitero Gigante
El Charpitero Gigante
A viagem de Puerto Natales até ao Parque Nacional decorreu numa ambiência de filme de autor, daqueles filmes tão herméticos na sua essência que apenas o próprio autor o compreende: a viatura avançava velozmente pela estrada e eu tinha a sensação de estar a ver sempre a mesma cena. A escala e dimensão do cenário alargam o horizonte a uma perspetiva difícil de apreender para quem não é habitual destas paragens. De início o trilho mostrava-se intratável, muito difícil e lento, por entre pedras soltas que a cada passo para a frente me faziam deslizar dois atrás. Com meia-hora de caminho necessária para alcançar a meia-encosta, o trilho seguia as curvas do vale que me levaria à base das torres num passo, agora, mais firme e seguro pois o desnível era pouco acentuado. Aqui ou ali salpicado por Lengas acompanhava a margem direita do rio Ascencio, visível no seu correr por entre as pedras e as Lengas de cores douradas que polvilhavam as margens. Apesar de algum vento forte, o dia estava bom para caminhar. Neste mister de calcorrear os caminhos por onde já ninguém anda, sobra-nos tempo para arrumar ideias dentro da cabeça, planear projetos ou, simplesmente, sentir o pulsar da vida na sua plenitude tornando-nos em recetáculo geral de todas as sensações. Do milhão de memórias que carregava comigo, o cérebro insistia em relembrar-me constantemente que eu estava a caminho de Las Torres Del Paine, do que iria ver diante de mim quando lá chegasse. Essa dúvida, incerteza, desconfiança, crença… alimentava-me de coragem e força para vencer a etapa. Ver com os meus olhos, primeiro; primeiro, o olhar. Sempre.
Por uma antiga e rudimentar ponte de madeira saltei o rio Ascencio que há alguns quilómetros me vinha a acompanhar para entrar num bosque fechado de Lengas, a árvore mais característica da Patagónia. Em sintonia, tudo se complementava, forma e conteúdo no seu esplendor. Sentado para descansar alguns minutos e hidratar-me, ergui-me de sopetão ao surpreender-me com o inesperado: a cerca de 20 metros de distância, por entre os ramos das árvores, duas aves de médio porte a saltar de tronco em tronco. Não cria nos meus olhos, mentiam seguramente.
Trocada a grande angular até aí usada, por uma outra de “400 mm”, lancei-me em perseguição desabrida daqueles “pica-paus” até perder a noção do local em que havia deixado a mochila. Sei agora que era um pica-pau preto de nome El Charpitero Gigante, cuja principal característica distintiva entre géneros é a cabeça vermelha do macho, fácil de observar sempre que este percorre o tronco de uma árvore em busca de alimento. De novo a caminho, estava maravilhado com o constante deslumbramento provocado por todos estes encontros, casuais ou não. O avistamento dos pica-paus não me saía da cabeça, tão surpreendente quanto mágico havia sido.

As cores de Inverno no Alvão

O Parque Natural do Alvão, tem sido para mim, um lugar mágico que me permite fotografar ao longo de todas as estações do ano. Todos os anos regresso ao parque e todos os anos fico surpreendido com o que ele me oferece. Quase sempre o faço para caminhar, fotografar, filmar e registar planos de timelapse. Procuro os detalhes do parque. Os pormenores. Aqueles recantos, que só quem caminha, descobre. É minha opinião de que não tem sido devidamente acompanhado pelas entidades que a ele estão ligadas. Deveriam cuidar dele de uma forma mais assídua, com aplicações práticas ao nível da reflorestação e ordenamento. Apesar disso, continuo a fazer o meu trabalho, a titulo individual e isento de forças externas. Deixo aqui algumas fotografias que registei há relativamente pouco tempo, de alguns recantos do parque e que são o exemplo das cores e tonalidades que se verificam nesta época do ano. O fim do Inverno e o inicio da Primavera. Tons de verde e amarelo que afastam as cores frias do Inverno e que são sinónimo da chegada da Primavera. Já se vêem as pessoas a conversar junto aos ribeiros que atravessam estes terrenos de cultivo. Os animais pastam ali mesmo ao lado, procurando os suculentos rebentos verdes da erva e dos arbustos. Longe da aldeia global, esta gente “da aldeia” que teima em não se ligar ao mudo, vive o seu dia a dia. Devagar. Como deveria ser vivido. O problema será quando desaparecerem. A pequena aldeia perde a ligação à aldeia global e tudo termina. No esquecimento. Perde-se assim mais um dos elos que nos ligam à natureza.

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As cores de Inverno no Alvão

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Fin De Sendero Del Glaciar

Sendero Del Glaciar
Sendero Del Glaciar

Ao longe, o canal de Beagle e a ilha de Navarino, no Chile. Que visão extraordinária, um quadro natural a merecer contemplação.

À saída de Ushuaia a tarde estava amena, mas a aproximação ao glaciar fazia-se notar amiúde no arrefecimento do ar. A chegado ao topo da subida havia terminado. Podia agora respirar bem fundo e aliviar a pressão causada pelo esforço feito. A primeira etapa estava ultrapassada. Depois de atravessar uma pequena ponte de madeira que levava ao lado contrário do riacho que resulta do degelo da neve na montanha, o trilho era agora bem mais suave embora bastante lamacento. Foi aí que acelerei o passo, sempre com os olhos postos no cume da montanha que estava bem na minha frente e de onde já era possível ver o glaciar.

O caminho serpenteava ao longo do riacho e aqui ou ali eu ia fazendo fotografias, para alguns quilómetros à frente a planície dar lugar à subida cujo trilho estava bem delineado na encosta da montanha. Havia um contraste muito grande entre a rocha cinzenta e o trilho definido pela constante presença do Homem. Fiquei com a perfeita noção da distância que ainda faltava percorrer. A subida era demasiado dura e eu carregava todo o equipamento às costas, mas lá diz o ditado: quem corre por gosto não cansa.

O deslumbre da paisagem era motivador. Duas horas após o início estava no fim do trilho: Fin De Sendero Del Glaciar, inscrevia-se numa placa informativa. Bem por cima de mim estava o enorme glaciar. Imponente, anunciando-se ao Mundo de maneira imperial pelo som aterrador surgido do atrito causado pelo seu movimento.

Posicionei o tripé ao nível do solo, pois o vento era bastante forte e derrubava-o sempre que o levantava à altura máxima; ajustada a câmera, agarrei-me a ele e ali fiquei durante longos cinco minutos, aninhado.

Patagónia – Subida ao Fitz Roy

No trilho para o Fitz Roy
Patagónia – No trilho para o Fitz Roy

O rio corria sem sossego por entre as pedras do vale. Em redor, árvores vestidas com os tons de outono cobriam todo o vale até meia encosta, onde já surgia a neve e, de súbito, imponente, o maciço rochoso do Fitz Roy. O pico, fantasmagórico no seu incessante jogo de escondidas com as névoas.
Nada substitui a experiência pessoal, cunho marcado da vivência in loco. O registo mecânico permite a guarda, para memória futura, de cada detalhe, elemento, pormenor. É um resgate feito ao passado, transmitido em herança às gerações vindouras. Mas a memória visual, mesmo que falível, mesmo que roída pelo tempo, é feita da vivência pessoal, intransmissível, incorruptível na essência – eu vi o Fitz Roy!

Posto a caminho, atravessei rio Blanco para chegar ao último acampamento antes de atingir a base do Fitz Roy: Camping Rio Blanco.

O sol ia alto e o calor inclemente era um braseiro que trazia sob a roupa; estava a ser tomado pelo cansaço. Obriguei-me a parar, descansar e a beber água, a hidratação é fundamental e eu não me esqueci dela durante os dias anteriores.

Um painel de madeira ali perto informava um quilómetro para chegar ao fim do trilho e sugeria ao leitor que verificasse o seu estado físico. Agora??? Depois de 11 quilómetros percorridos é que sou alertado para isto? Vim eu do outro lado do mundo para me atirarem este desaforo à cara? Se tinha chegado até ali, iria certamente percorrer o último quilómetro tal como havia feito os anteriores. Qual é a dificuldade?, atirei, altivo, em modo desafiador aos deuses da fortuna. Por um mísero quilómetro… Por quem me tomam?

Patagónia - Fitz Roy
Patagónia – Chegada ao Fitz Roy

Resoluto, a mastigar quezília, fiz-me à vida que não me atenho a pormenores. De súbito… estanquei. As árvores tinham desaparecido e o que se plantava diante dos meus olhos exauriu-me todas as forças: o trilho seguia montanha acima numa inclinação que de acentuada não tinha nada – tinha tudo!

Como uma cobra, serpenteava a encosta. Ah!, pois… admiti a custo: o tal quilómetro em falta!

Degelo do glaciar Tasman

Tasman Lake
Tasman Lake

Esta fotografia tem um significado especial para mim, embora por maus motivos. Foi registada aquando da minha aventura pela Nova Zelândia, para realizar o documentário curto “Aotearoa-We Are All Made Of Stars“.
Nela é visível o Lago Tasman. Este Lago só começou a surgir há relativamente pouco tempo (1990), fruto do degelo do glaciar Tasman no parque nacional “Aoraki/Mount Cook National Park”. Prevê-se que daqui a 20-30 anos, o glaciar Tasman (visível ao centro, próximo das montanhas), desapareça por completo. É perfeitamente notória a erosão nas margens do lago. Dá para perceber que outrora, o glaciar cobria toda esta área e cujo degelo deu lugar ao lago. Há gente que acredita que tudo isto é uma invenção. Infelizmente tenho tido a oportunidade de comprovar que estão errados.

Ser Humano é ser inteligente

Perito Moreno - Degelo
Perito Moreno – Degelo

António Mota – Autor do prefácio do meu livro “Patagónia – A Ponta do Mundo“, escrevia assim:

Neste livro “Patagónia A Ponta Do Mundo” a narrativa luta com a imagem pela supremacia na entrega da mensagem. Cabe ao leitor avaliar qual cumpre melhor o objectivo, mas, acima de tudo, devemos assumir que ambas contribuem para a consciencialização da humanidade na necessidade da manutenção saudável do nosso suporte de vida, a Terra (“Our Home”, na locução do filme homónimo do mesmo autor).

Se a força da prosa está na sua simplicidade já para imagem está no pormenor onde se percebem provas da degradação do ecossistema, habitat de muitas espécies. Se todos aceitamos provas da extinção de algumas, ou melhor, muitas espécies, porque não o há de acontecer com a nossa? Einstein disse, ”Deus não joga aos dados”, noutro contexto, mas com o mesmo sentido, eu direi “a natureza não toma partidos”, porque nos haveria de poupar? A continuarmos a tratar este planeta, “a Nossa Casa”, como até aqui esse será também o nosso destino.

A nossa agressão ao meio ambiente pode ser melhor compreendida através de um modelo aproximado, fazendo um paralelo com o nosso corpo. De entre as muitas bactérias que nos habitam, as que prejudicarem o organismo serão combatidas pelo nosso sistema de defesa, o nosso organismo dá-nos sinais desse conflito através de um mal-estar generalizado. Como insistimos na cegueira de ignorarmos os fenómenos atípicos (sintomas) que a natureza nos tem enviado, senão, uma reacção de defesa do organismo vivo que nós também habitamos e agredimos, “a TERRA”.

Esta ideia é base da teoria GAIA (divindade que representava a terra na mitologia Grega) que vê a terra como um complexo sistema autor regulador, característica de qualquer ser vivo, e propõe que a biosfera (todos os seres vivos) e toda a parte física da terra; atmosfera, criosfera, hidrosfera e litosfera se comportem como órgãos de um só corpo a trabalharem para o mesmo objectivo: a manutenção das condições climáticas e bioquímicas necessárias à vida. Uns ainda não aceitam como um facto, as alterações climáticas, muitos já, mas, a maioria, não mudou uma palhinha nos seus comportamentos. Temos a toda a hora exemplos disso, quem nunca viu o automobilista da frente a lançar pela janela fora, lugar que é de todos, um qualquer objecto de que já não necessita?

Ser “Humano” é ser inteligente, crescemos física e intelectualmente e devemos adaptar, através da inteligência, constantemente, os nossos comportamentos à luz dos novos conhecimentos, comportamento em concordância com conhecimento. Não vejo há muito tempo uma mudança positiva nos hábitos quotidianos que não fosse obrigatória, veja-se os sacos plásticos de compras.

A mudança só será efectiva e rápida se for livre e colaborativa, se partir de cada um, com convicção, será permanente, já a obrigatoriedade implica uma supervisão e que por natureza humana parece feita para ser ludibriada, corrompida, uma tentação.

Livro – Patagónia a ponta do mundo

O trilho da vida

Parque Natural do Alvão
Parque Natural do Alvão

Existem dias na vida, que nos levam a meditar sobre o que andamos nós (Humanidade), realmente a fazer. Cada um de nós vai desenhando um caminho em função de muitas variáveis, que nos guiam ao longo da vida e nos fazem mudar ou não de trajectória. Todos percorremos o trilho da vida.

Esta fotografia foi registada no Parque Natural do Alvão, naquela que é para mim, umas das melhores épocas para a fotografia, o Outono. Clique  na imagem para a ver em tamanho maior, ou então clique neste link.

Nela está bem patente cada recanto, cada bocado de terra, fruto da mão do Homem ao longo de muitas gerações e que são um encanto para a vista Humana.

Terra que produz, que não foi desenhada com régua e esquadro, no entanto é um caos que me fascina. Nem tudo tem de ser rigor. O tempo, por exemplo, não pode ser dominado pelo Homem. A meteorologia, por exemplo, não tem de ser o resultado de a+b em função do que pretendemos para dado momento. E enquanto estas variáveis não forem dominadas pelo Homem, ainda há algo a que nos possamos agarrar. Ainda há a possibilidade do caos se pronunciar. Ainda há a possibilidade de viver, percorrendo o trilho da vida.

E para isso é preciso fazer alguns sacrifícios, nomeadamente:

Levantar bem cedo da cama, caminhar durante largos quilómetros, ter alguma capacidade de ultrapassar dificuldades e acima de tudo, vontade de estar em contacto com a natureza. Fugir do stress das cidades, fugir da falta de tempo, aproveitar os fracos raios de sol desta época do ano, ouvir o vento nos ramos despidos das árvores, interrompidos aqui ou ali pelo “click” da câmera fotográfica. A isto, chama-se viver.

Porque a vida não é este corropio de viagens entre a nossa casa, o local de trabalho e ao fim de semana, o shopping, polvilhadas ao longo da semana de notícias de que afinal os animais e as plantas sofrem, o oxigénio na Índia pode custar 6 Euros, ou enquanto alguns respiram o suor dos ginásios.

Quando olho para esta fotografia, vejo um passado de dificuldades, de trabalhos árduos, de sofrimento quer do Homem quer dos animais e já agora, das plantas. Mas nunca nos devemos esquecer, de que afinal somos resultado do passado. Da evolução. Evolução que porventura poderá não estar certa, mas certamente estará nas mãos de cada um de nós.

Portanto, hajam! Não façam da vida, um mero usufruto do que o passado vos deu. Criem o vosso próprio trilho.

Esta é a nossa única casa, a Terra.

Nunca o mensageiro pode ser mais importante do que a mensagem

Islândia – Paulo Ferreira

Sempre fui uma pessoa que não enveredou por alarmismos, tento manter a calma mesmo nos momentos onde ela não deveria entrar. Se assim não fosse, nunca teria enveredado pela técnica de timelapse, certo?
Nunca segui as massas e faz-me um bocado de confusão, ver todos os dias nos meios de comunicação social, uma espécie de histerismo colectivo, vindo não se sabe muito bem de onde, mas que tem colocado a sociedade numa polarização nunca antes vista.
É sabido que nós Humanos, temos de mudar muita coisa, numa tentativa de reduzir gastos com recursos naturais, que não fazem sentido continuar a desperdiçar.
Optar por outras formas de energia, menos destruidoras dos ecossistemas. Mudar de hábitos, de politicas, alterar costumes e acertar problemas culturais e sociais. Certo!

A Humanidade chegou até aos dias de hoje, pois é a forma como evoluímos. Estão a querer insinuar que evoluímos de forma errada? Há uma geração que roubou a infância da mais actual? Que histeria é esta? A actual interrogação deve-se à evolução. Não estará a inteligência directamente relacionada com a evolução? Já diziam os meus avós: – Não se pode ter sol na eira e chuva no nabal. A vida é assim.
Cair no radicalismo é impedir que a mudança aconteça. E isso ajuda tanta gente! Na minha opinião, nunca um mensageiro pode ser mais importante do que a mensagem que pretende passar. E calmamente tenho tentado que as consciências se formem na cabeça de cada um.
https://pauloferreira.pt/portefolio-de-filmes/

Islândia – Monólogo com uma foca

Foca
Clicar na imagem para ver a fotografia em tamanho maior
A minha aventura por terras da Islândia, realizada em maio deste ano teve um momento que nunca mais esquecerei. A dada altura, nas proximidades de Ísafjörður nos fiordes ocidentais, deparei-me com uma colónia de focas. Já andava há alguns dias a tentar descobri-las e eis que numa altura em que já estava a ficar desanimado, elas surgiram diante de mim.
Depois de ter percorrido quase uma centena de quilómetros por uma estrada de “terra batida” fui dar a uma pequena enseada, onde estavam essas focas. Logo que as descobri, iniciei o registo fotográfico e aqui ou ali aproveitei para gravar alguns planos de vídeo que serão utilizados no meu próximo documentário curto.
De entre as inúmeras fotografias que tive oportunidade de registar, saliento esta.
Trata-se de um momento vivido intensamente entre mim e a foca. Eu estava tão ansioso e surpreendido com a presença da foca que a dada altura percebi que estava a falar com ela. Encontrei-a a uns 50 metros de mim e aos poucos fui-me aproximando. Pé ante pé, fui deslizando por entre as rochas cheias de algas, escorregando aqui ou ali, mas sempre com os olhos postos na camera fotográfica. Lembro-me que cheguei muito próximo da foca e a objectiva que usava naquele momento (400 mm), favoreceu imenso o trabalho.
A dada altura, de tão próximo que estava (a uns 20 metros), parecia que a ouvia respirar.
Foi aí que o monólogo começou. Eu fazia as perguntas e respondia logo de seguida. Suavemente, para não a assustar. Lembro-me de lhe dizer para ficar quieta, caso contrário ficaria “desfocada”.
Era a primeira vez que estava diante de uma foca, em ambiente completamente natural. Não sabia como iria reagir, nem sabia como deveria agir. Acho que já todos passamos por esta situação, uma vez na vida.
Apesar de toda a incerteza, o monólogo manteve-se e acreditem que a foca também. Penso que gostou de ser fotografada, pois esta fotografia é retrato disso mesmo.
Infelizmente, 5 minutos depois, em virtude do ruído que fiz ao escorregar numa rocha, na tentativa de me aproximar ainda mais, deslizou para dentro de água e desapareceu no oceano. Lentas em terra, mas muito esquivas na água.
No entanto ficou para a história, esse momento em que sem dar conta, estabeleci um monólogo com uma foca.

Noudar de uma magia natural

Veado - fêmeaNo passado dia 5 de Outubro visitei uma vez mais, aquele que na minha opinião, é um dos últimos refúgios naturais em Portugal.
Trata-se de Noudar (Parque de Natureza de Noudar) e o nome diz tudo. É na realidade um lugar natural, pejado de fauna e flora selvagem e dócil, onde ainda é possível avistar morcegos, osgas, lacraus, coelhos, fuinhas, cigarras, javalis, abutres, cegonhas, garças, veados, raposas, linces, etc. Delimitado a Norte pelo rio Ardila (que define a fronteira entre Portugal e Espanha) e a Sul pela ribeira de Múrtega, este parque tem todas as condições para quem gosta de fotografia de natureza.

Desta vez, alguns amigos e suas famílias, fizeram questão de me acompanhar. Queriam ver com os seus olhos, esse lugar mágico de que lhes falava, já há algum tempo.
Nesta altura do ano, o parque tem como principal motivo de visita, a observação dos veados e a sua brama. Para os mais distraídos, esta é pois uma altura do ano em que estes animais andam na fase do cio, tendo por finalidade a reprodução. Momento singular, onde podemos fotografar estes seres vivos magníficos, bem como ouvir a brama.
Para o conseguir é preciso caminhar, percorrer a pé alguns dos trilhos do parque e acima de tudo estar em silêncio. São animais esquivos, que ao mais pequeno ruído, desatam a correr por entre arbustos do montado e rapidamente desaparecem por detrás de uma azinheira.

Veado - machoExausto e sob um calor abrasador, na companhia de alguns amigos e familiares e já quase no final de uma caminhada de cerca de duas horas, avistei um veado (fêmea) a alimentar-se na encosta do outro lado do vale. Eu sabia o que procurava e os meus olhos fixaram-se naquele animal e não mais o larguei até que todos aqueles que estavam comigo, o conseguissem ver através do seu olhar ou com recurso a binóculos.
Pouco depois esta fêmea desapareceu por entre os arbustos numa correria desenfreada e logo atrás surgiu o macho, impávido, calmo e sereno, caminhando montado acima, parando aqui ou ali para observar ao seu redor.

A natureza nunca tem hora marcada. Não é como ir ao jardim zoológico.

Estes momentos, naturais, fazem-nos sentir que não somos os únicos a necessitar de espaço. Nós queremos ocupar o território, queremos que todo o meio que nos rodeia seja conhecido e esquecendo-nos que os outros seres vivos também precisam de espaço.

Coexistir é a palavra de ordem em Noudar, pese embora o facto de nos últimos anos eu ter verificado que cada vez mais estes animais no seu estado selvagem começam a ficar numa espécie de jaula, proveniente das inúmeras cercas que estão a construir.
Não quero antever um parque, cujo foco principal seja a componente económica proveniente da cultura do porco preto.

Este lugar é mágico. De dia e de noite. À luz da Lua ou das estrelas. A pé, de bicicleta, de “noucar” ou simplesmente sentado, rodeado de familiares ou amigos. Estar numa das suas esplanadas num final de tarde, é quase certo sermos brindados pela beleza de um pôr do sol por detrás da muralha do castelo de Noudar. Logo seguido de um lusco-fusco que rapidamente define os contornos dos montes na linha do horizonte, outrora local de gentes, agora um sitio singular, mágico.