Islândia – Monólogo com uma foca

Foca
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A minha aventura por terras da Islândia, realizada em maio deste ano teve um momento que nunca mais esquecerei. A dada altura, nas proximidades de Ísafjörður nos fiordes ocidentais, deparei-me com uma colónia de focas. Já andava há alguns dias a tentar descobri-las e eis que numa altura em que já estava a ficar desanimado, elas surgiram diante de mim.
Depois de ter percorrido quase uma centena de quilómetros por uma estrada de “terra batida” fui dar a uma pequena enseada, onde estavam essas focas. Logo que as descobri, iniciei o registo fotográfico e aqui ou ali aproveitei para gravar alguns planos de vídeo que serão utilizados no meu próximo documentário curto.
De entre as inúmeras fotografias que tive oportunidade de registar, saliento esta.
Trata-se de um momento vivido intensamente entre mim e a foca. Eu estava tão ansioso e surpreendido com a presença da foca que a dada altura percebi que estava a falar com ela. Encontrei-a a uns 50 metros de mim e aos poucos fui-me aproximando. Pé ante pé, fui deslizando por entre as rochas cheias de algas, escorregando aqui ou ali, mas sempre com os olhos postos na camera fotográfica. Lembro-me que cheguei muito próximo da foca e a objectiva que usava naquele momento (400 mm), favoreceu imenso o trabalho.
A dada altura, de tão próximo que estava (a uns 20 metros), parecia que a ouvia respirar.
Foi aí que o monólogo começou. Eu fazia as perguntas e respondia logo de seguida. Suavemente, para não a assustar. Lembro-me de lhe dizer para ficar quieta, caso contrário ficaria “desfocada”.
Era a primeira vez que estava diante de uma foca, em ambiente completamente natural. Não sabia como iria reagir, nem sabia como deveria agir. Acho que já todos passamos por esta situação, uma vez na vida.
Apesar de toda a incerteza, o monólogo manteve-se e acreditem que a foca também. Penso que gostou de ser fotografada, pois esta fotografia é retrato disso mesmo.
Infelizmente, 5 minutos depois, em virtude do ruído que fiz ao escorregar numa rocha, na tentativa de me aproximar ainda mais, deslizou para dentro de água e desapareceu no oceano. Lentas em terra, mas muito esquivas na água.
No entanto ficou para a história, esse momento em que sem dar conta, estabeleci um monólogo com uma foca.

Noudar de uma magia natural

Veado - fêmeaNo passado dia 5 de Outubro visitei uma vez mais, aquele que na minha opinião, é um dos últimos refúgios naturais em Portugal.
Trata-se de Noudar (Parque de Natureza de Noudar) e o nome diz tudo. É na realidade um lugar natural, pejado de fauna e flora selvagem e dócil, onde ainda é possível avistar morcegos, osgas, lacraus, coelhos, fuinhas, cigarras, javalis, abutres, cegonhas, garças, veados, raposas, linces, etc. Delimitado a Norte pelo rio Ardila (que define a fronteira entre Portugal e Espanha) e a Sul pela ribeira de Múrtega, este parque tem todas as condições para quem gosta de fotografia de natureza.

Desta vez, alguns amigos e suas famílias, fizeram questão de me acompanhar. Queriam ver com os seus olhos, esse lugar mágico de que lhes falava, já há algum tempo.
Nesta altura do ano, o parque tem como principal motivo de visita, a observação dos veados e a sua brama. Para os mais distraídos, esta é pois uma altura do ano em que estes animais andam na fase do cio, tendo por finalidade a reprodução. Momento singular, onde podemos fotografar estes seres vivos magníficos, bem como ouvir a brama.
Para o conseguir é preciso caminhar, percorrer a pé alguns dos trilhos do parque e acima de tudo estar em silêncio. São animais esquivos, que ao mais pequeno ruído, desatam a correr por entre arbustos do montado e rapidamente desaparecem por detrás de uma azinheira.

Veado - machoExausto e sob um calor abrasador, na companhia de alguns amigos e familiares e já quase no final de uma caminhada de cerca de duas horas, avistei um veado (fêmea) a alimentar-se na encosta do outro lado do vale. Eu sabia o que procurava e os meus olhos fixaram-se naquele animal e não mais o larguei até que todos aqueles que estavam comigo, o conseguissem ver através do seu olhar ou com recurso a binóculos.
Pouco depois esta fêmea desapareceu por entre os arbustos numa correria desenfreada e logo atrás surgiu o macho, impávido, calmo e sereno, caminhando montado acima, parando aqui ou ali para observar ao seu redor.

A natureza nunca tem hora marcada. Não é como ir ao jardim zoológico.

Estes momentos, naturais, fazem-nos sentir que não somos os únicos a necessitar de espaço. Nós queremos ocupar o território, queremos que todo o meio que nos rodeia seja conhecido e esquecendo-nos que os outros seres vivos também precisam de espaço.

Coexistir é a palavra de ordem em Noudar, pese embora o facto de nos últimos anos eu ter verificado que cada vez mais estes animais no seu estado selvagem começam a ficar numa espécie de jaula, proveniente das inúmeras cercas que estão a construir.
Não quero antever um parque, cujo foco principal seja a componente económica proveniente da cultura do porco preto.

Este lugar é mágico. De dia e de noite. À luz da Lua ou das estrelas. A pé, de bicicleta, de “noucar” ou simplesmente sentado, rodeado de familiares ou amigos. Estar numa das suas esplanadas num final de tarde, é quase certo sermos brindados pela beleza de um pôr do sol por detrás da muralha do castelo de Noudar. Logo seguido de um lusco-fusco que rapidamente define os contornos dos montes na linha do horizonte, outrora local de gentes, agora um sitio singular, mágico.

Islândia – O meu próximo documentário curto

Paulo Ferreira na IslândiaEste ano, à semelhança de anos anteriores, enveredei por uma aventura, em busca de paisagens arrebatadoras e lugares únicos, onde a natureza prevalece e se mostra aos olhos daqueles que a querem ver. Desta vez, foi a Islândia. Terra insular no meio do Atlântico Norte. Um país que tem uma população de quase 350 mil habitantes, cobrindo uma área de cerca de 103 mil quilómetros quadrados. Grande parte dos seus habitantes, estão na capital, Reiquiavique. Fora da cidade, é um imenso lugar cheio de magia, pronto a ser descoberto.

O desafio era enorme. Percorrer a ilha em menos de 15 dias, não seria fácil.
Nos primeiros dias, as condições meteorológicas não foram as melhores, no entanto sempre fui buscar forças onde já não acreditava que ainda existissem. O documentário curto tinha de ser realizado. Sinto necessidade de apelar ás pessoas para a necessidade de preservação do nosso planeta, a nossa única casa. Nunca desisti e o documentário está quase pronto.

Que estes lugares únicos, estas paisagens, a fauna e a flora da Islândia, sejam fonte de inspiração para continuar a preservar o pouco que ainda nos resta. Mesmo que para isso, eu tenha de ir a sitios inóspitos, subir a vulcões, atravessar paisagens lunares e percorrer dezenas de quilómetros por entre rios e vales de lugares desconhecidos. Não tenho medo do desconhecido.

Quantas vezes dei por mim a falar com focas, a pensar em baleias, a escalar um glaciar, a imaginar a explosão do cone de um vulcão onde estive sentado por várias vezes. Tudo isto estará no próximo documentário curto. Um filme com cerca de 15 minutos, que apela à consciência. Que apela a que tenhamos consciência. Consciência! Sapiência! Pensamento! No limite, teremos a capacidade de perceber a relação que existe entre nós, seres Humanos e o meio que nos rodeia (o ambiente onde estamos inseridos).

Numa época em que tanto se fala da necessidade de travar as alterações climáticas, com o objectivo de salvar o planeta, na verdade, quem está em perigo somos nós. A Terra continuará a existir, quer cá estejamos, ou não.

E o filme…em breve!

Uma amizade para lá da fotografia

Paulo FerreiraHá algum tempo atrás fui convidado para um projecto fotográfico que viria a ser um dos meus maiores desafios até à data.
Estávamos em pleno Outono, um domingo chuvoso e eu sentado junto ao computador a editar um vídeo (na altura o documentário curto Patagónia – The Tip Of The World”). Tocou o telemóvel. Do outro lado da linha, uma voz calma e serena, desculpava-se por me estar a ligar num domingo. Certificou-se de que estava a falar comigo e prosseguiu com uma pergunta:
Estás interessado em ceder algumas fotografias, para colocar nas paredes de um espaço de turismo rural em Gondomar?
Confesso que fiquei boquiaberto. Colocar fotografias nas paredes? Rapidamente comecei a perceber que essas fotografias não seriam 20×30, nem tão pouco alguns números mais acima.
Ainda não refeito da surpresa da ideia, do outro lado do telemóvel, nova pergunta:
Quanto é que isso custará?
Calma, disse eu. Deixe-me lá ver se percebi o que pretende.
A chuva era cada vez mais forte, o domingo estava muito cinzento, frio e eu perdido no meio do desafio, perguntei:
Qual o tamanho das fotografias? Pretende colocar telas de grande dimensão?
Novamente do outro lado, uma resposta:
São grandes. Para colocar nas paredes. Talvez algumas tenham 2, 3, 4, 5, ou mesmo 6 metros.
Se eu estava pasmado, mais pasmado fiquei. 6 metros?
Respondi:
Tenho de ver o local e perceber qual o material que será usado como suporte.
Combinamos um dia e hora e 3 ou 4 meses mais tarde, as fotografias estavam nas paredes desse espaço.

Esta imagem em anexo, serve apenas para ilustrar um dos locais que foram fotografados com vista à obtenção de uma panorâmica que tivesse a qualidade suficiente para uma impressão de 6 metros de largura.
Os clientes, fizeram questão de ir a esse mesmo local, para verem com os seus olhos, o espaço retratado na fotografia que têm no seu estabelecimento de turismo rural. E foram eles que me fizeram esta fotografia.
Há momentos que ficam para a eternidade. Muito mais importante do que a fotografia, são as relações que as pessoas estabelecem. Neste caso em particular, aquilo que era inicialmente um negócio deu lugar a uma amizade. E a vida é feita disto. De momentos que nos dão cor à vida.
Obrigado Paula e Norberto.

Grifo – O todo poderoso

Grifo
Grifo

A minha paixão pela fotografia de natureza, levou-me estes dias ao Penedo Durão em Freixo de Espada À Cinta, no Parque Natural do Douro Internacional. O objectivo era fotografar aves, mais concretamente o Grifo, o Britango e a Águia Perdigueira. Confesso que fiquei surpreendido pela quantidade de aves que habitam aquela zona de Portugal. De entre algumas centenas de fotografias que realizei, decidi publicar esta em especial, pois recordo perfeitamente o momento em que a registei. O momento foi vivido apenas entre mim e o Grifo. Lembro-me de o olhar nos olhos, através da objectiva da minha câmera e de ele não gostar. Olhou em frente revoltado pelo facto de o ter fotografado e destemido desapareceu no penedo rochoso que o aguardava. A imponência destas aves, o lugar que ocupam na natureza e a sua dimensão, são aspectos que me fascinam. Apesar da importância de cada um destes seres vivos, temos vindo a observar um crescente aumento na destruição da biodiversidade. As causas poderão ser as mais variadas, contudo na maioria das vezes, somos nós que aceleramos este processo. Clique na imagem para visualizar a fotografia em tamanho maior.

Panorâmica da Via Láctea

Panorâmica da Via Láctea. Clicar na imagem para ver a fotografia num tamanho superior.

No passado dia 31 de Agosto, estive no Parque Natural do Douro Internacional, nas proximidades da Aldeia de Pena Branca, a realizar um workshop de fotografia nocturna. Na noite anterior à do evento, fui para o terreno na expectativa de conseguir realizar uma fotografia que há já algum tempo idealizava. Eu queria imenso uma fotografia panorâmica, com a finalidade de mostrar à Via Láctea, que circunda o Planalto Mirandês, localizado no Nordeste Transmontano ao longo do Douro Internacional.

Apesar de ter chegado muito tarde ao local onde iria ficar alojado (Cimo da Quinta), ainda consegui tempo para registar este momento. A ânsia de “congelar” a galáxia em espiral onde vivemos era imensa. E essa ânsia acontece, não pelo facto de querer um troféu, antes sim porque os dias que temos disponíveis para o conseguir, não são assim tantos. Isto porque os meses do ano favoráveis à fotografia da Via Láctea, são apenas 2 (na minha opinião). Por outro lado temos de eliminar os dias de Lua Cheia e as condições climatéricas desfavoráveis, como chuva, nevoeiro, neblinas, nuvens, etc. E ainda há que contar com a vontade de cada um de nós, de ir para o terreno à noite, deixando para trás algumas coisas importantes.

Com todos estes impedimentos, é fácil de deduzir que as noites para fotografar a Via Láctea, não são assim tantas como parece. É pois necessária uma boa dose de coragem, dedicação, persistência e trabalho. Tudo isto justificado pela simples razão de que é preciso mostrar o local onde vivemos. Uma pequeníssima bola azul nesta imensa Galáxia. Que quer aceitem quer não, é indiferente se essa bola azul, lá está ou não. A Via Láctea será sempre Via Láctea, com ou sem Terra, com ou sem racionalidade.  Disso não haja a mais pequena dúvida.

No entanto, sabendo eu (e tu e todos nós) a dimensão da nossa “única casa”, será mais fácil percebermos a nossa dimensão e o quão insignificante somos para a vida no Universo. Ter noção da escala da Terra em relação a esta imensa Galáxia, é ter noção do nosso lugar. Percebemos assim que todos os conflitos pessoais e da Humanidade em geral, não têm qualquer razão de ser.

Por isso, não liguem muitas luzes, não iluminem o que não é preciso, pois todos nós necessitamos da luz das estrelas, para iluminar a nossa existência.

Aproveito o momento para agradecer aos participantes no workshop de fotografia nocturna em Miranda do Douro, (Diana Pinto, Alcides Meirinhos, João Miranda de Azevedo, Manuel Marques, Ricardo Leal e Luís Almeida), pela presença. Espero que tenham vivido uma experiência única e que tenham percebido que mais importante do que fazer fotografia, é viver e registar os momentos, num negativo, num ficheiro, ou na nossa memória.

Patagónia – O degelo do Perito Moreno

Numa das minhas aventuras ao redor do mundo, tive a oportunidade de registar em fotografia, o degelo de um enorme glaciar. O Perito Moreno. E este foi o momento:
Na imensidão da solidão, subitamente, ecoa um som estrondoso, arrebatador. Ávido, procuro com o olhar movimento, ação conforme à dimensão do ruído, certamente uma massa de gelo a desmoronar-se de encontro à água, poderosa no seu fluir.
O som, propagado a uma velocidade inferior à da luz, apanha-me distraído e incapaz de reagir a tempo de fazer um registo fotográfico de toda a ação. Talvez numa próxima oportunidade… mas com a atenção redobrada!
Meia dúzia de planos em timelapse e 900 fotografias depois continuava sem despegar o olhar do glaciar na esperança de assistir a novo desabamento. Estranhamente, fiquei dependente dessa visão: porque o ambiente me preocupa, ou simples curiosidade, ou talvez porque sou como S. Tomé – ver para crer que o aquecimento global é uma realidade.
A minha obstinação deu frutos e eu pude recolher o resultado numa fantástica sequência de fotografias feitas no momento dramático da queda de uma enorme massa de gelo na água e à colossal onda gerada pela força do impacto. Sorte. Teimosia. Paciência. Resiliência. Trabalho.
Para se ter a noção da dimensão, este glaciar tem cerca de 60 metros de altura e as fotografias foram obtidas com uma distancia focal de 35mm:

Glaciar Perito Moreno
Um dos maiores glaciares do mundo, o Perito Moreno. Momento onde se verifica o desprendimento.

 

Queda de bloco de gelo
Momento em que o bloco de gelo com cerca de 30 metros de altura, rebenta na água.

Cortinarius Porphyroideus – um cogumelo raro

Cortinarius Porphyroideus

A minha aventura pela Nova Zelândia previa um dia para subir ao glaciar Rob Roy para realizar algumas fotografias,  planos de timelapse e vídeo. A ideia era sair de Wanaka bem cedo e conduzir por uma estrada de terra, durante cerca de uma hora. Era o tempo previsto para percorrer os quase 50 quilómetros que ligam Wanaka ao início do trilho para o Rob Roy. Um trilho de alta montanha com cerca de 12 quilómetros.

Rapidamente verifiquei que era um percurso em muito mau estado e cujo fim poderia não ser atingido, pois haviam muitos cursos de água provenientes das montanhas que atravessavam a estrada de terra. A sinalização, essa, estava lá constantemente em todas as travessias e informava que, caso a chuva fosse intensa, deveria regressar a Wanaka. Com calma e atento às mudanças de tempo, avancei. Pensava para mim: E se, depois de caminhar durante duas horas para chegar ao Rob Roy, começar a chover?, terei tempo para regressar? Olhei o horizonte e percebi que talvez o tempo não mudasse. Confiante e esperançado, avancei.

Depois de chegar ao fim da estrada era altura de colocar a mochila às costas. Aparentemente pesada, pois todo o equipamento de fotografia estava no seu interior, rapidamente esqueci-me disso e comecei a percorrer o trilho que ia pelo vale fora. O Rob Roy chamava-me.

A manhã estava fria e havia gelo no trilho que serpenteava ao longo do rio proveniente do glaciar Rob Roy.

Depois de caminhar durante cerca de 30 minutos, cheguei a uma ponte pedonal que permitia a passagem para a outra margem. Uma vez na margem oposta, subi a bom ritmo e rapidamente dei por mim a tirar alguma roupa. A cada passo que dava a subida parecia cada vez mais íngreme. Parei várias vezes para descansar um pouco debaixo de uma das árvores da imensa floresta de faias que polvilha todo o vale em direção ao glaciar. Lá no alto, um Kea (um papagaio muito inteligente) voa sob a copa das árvores, abrindo as suas asas coloridas, assinalando a sua presença.

Foi numa dessas paragens que retirei a câmara fotográfica e tentei enganar-me a mim próprio. – Não, não estava cansado. Havia parado para fotografar a natureza ao meu redor! Encostei a mochila a uma árvore e enveredei pelo interior do bosque na ânsia de ver qualquer coisa que fosse surpreendente e que me fizesse esquecer que estava a apenas meio caminho para o glaciar.

Depois de caminhar alguns metros para dentro da floresta de faias, aninhei-me para fotografar uma aranha muito colorida que por ali tecia a sua teia e comecei a fotografá-la. Confesso que estava completamente concentrado na procura da melhor perspetiva para enquadrar aquele aracnídeo. Por isso, decidi deitar-me no solo repleto de musgo e foi aí que os meus olhos se fixaram num pequeno cogumelo de uma cor estranha. Perguntei a mim próprio: Agora?, agora que ia descansar um pouco? Nunca tinha visto nada igual. Enquanto procurava acertar os parâmetros corretos para o registo daquele momento dei comigo a imaginar-me num dos filmes do Harry Potter.

As minhas mãos tremiam e eu, surpreendido com aquele cogumelo, não conseguia registar o momento. Todos os meus sentidos estavam ativos e inundavam-me de sensações e de emoções que só consegui controlar ao fim de dois ou três minutos. O próprio silêncio daquele lugar já era audível!

Eu queria continuar a subir para o Rob Roy, mas aquele cogumelo não me deixava! Acho que fiquei ainda mais cansado, tal era a adrenalina do momento. Acho que no total devo ter feito mais do 20 fotografias. Eu próprio tive de colocar um fim ao registo fotográfico, ou não fosse eu que ali estava.

Sozinho, no meio da floresta de faias, a caminho do glaciar Rob Roy, eu havia encontrado um cogumelo raro (só mais tarde soube através de uma procura na internet). O seu nome: Cortinarius Porphyroideus. Confesso que tentei encontrá-lo noutras regiões da Nova Zelândia, mas nunca mais o vi. No entanto, foi um momento marcante na minha aventura para produzir o filme “Aotearoa”. Tal como a vida, o  mundo é feito de pequenas coisas. Surpreendentes.

O Pacífico Sul ali tão perto

Nova Zelândia – Costa do Pacífico

Em quase todas as minhas aventuras, (como foi o caso da viagem à Nova Zelândia para realizar o filme “Aotearoa- We Are All Made Of Stars”), dificilmente perco a concentração no trabalho que estou a desenvolver ou que planeio vir a realizar, quer sejam planos de timelapse, vídeo ou simplesmente fotografia.

Foi o caso deste local, aqui retratado por uma fotografia da autoria de Marco Ribeiro. A concentração era tal que só depois de realizado o filme e visto o plano de timelapse que dali proveio, é que dei por mim a pensar que estive muito próximo de uma das zonas do Pacífico Sul com imensa atividade sísmica.

Pese embora o facto de em cada local e em cada momento, colocar todo o meu empenho no que estou a fazer, não obstante isso, uso as minhas capacidades de memória fotográfica para mais tarde relembrar tudo aquilo que me rodeava. E de facto, olhando para esta fotografia, vejo que estou bastante absorvido pelo momento que pretendia registar, tentando desesperadamente congelar aquele local e aquela cor de final de tarde. As marcas do sismo estavam ali mesmo ao meu redor, mas eu não queria saber disso, naquele instante.

Olhando agora, conscientemente percebo que toda esta região costeira havia sido alvo de um grande sismo em 2016. Eram ainda visíveis os desmoronamentos da principal via rodoviária que liga Christchurch ao Estreito de Cook. Por aqui circulei por duas vezes numa travessia memorável ao longo de uma costa retalhada, aqui ou ali salpicada por praias de areia negra que pareciam ligar a terra ao universo, quando o luar fazia brilhar os grãos de areia mais finos, cintilando como as estrelas. Apesar de tudo, ali estava eu, equilibrado numa rocha, junto ao Pacífico Sul tentando ajustar a câmera fotográfica, para realizar um plano de timelapse.

Milford Sound

A minha aventura pela Nova Zelândia, com o objectivo de produzir um documentário curto que fosse capaz de prender a atenção das pessoas para que possam perceber que a nossa única casa (a Terra) está a viver alterações profundas, previa uma viagem de cerca de 15 dias. Quatro deles eram para a viagem entre Portugal e aquela região do globo. Por isso só me restavam apenas 11 dias para concretizar o que havia planeado com a devida antecedência. Contudo, previa a possibilidade das condições climatéricas serem adversas e impossibilitarem o meu trabalho, nos diversos locais que pretendia visitar.

Não demorou muito tempo para ser confrontado com esta adversidade. A estação do ano que havia escolhido, era propicia a estas condições climatéricas. Milford Sound revelou-se um deles.

Milford Sound fica bem no coração do Parque Nacional de Fiordland, na Nova Zelândia. Para lá chegar é preciso percorrer uma estrada nacional de várias centenas de quilómetros. Cumprindo o meu plano, saí de Invercargill bem cedo e o destino era esse lugar que eu almejava conhecer e registar em timelapse. No final da estrada e depois de atravessar uma zona muito montanhosa, enveredar por túneis e desfiladeiros muito apertados, ficar cara-a-cara com um Kea (um papagaio muito inteligente que habita aquela região), surge diante de mim a imensidão das montanhas de Milford Sound. Um lugar mágico, onde o céu e a Terra se unem num só. O problema era que eu não via o céu. O dia estava muito cinzento e chovia intensamente. A água jorrava das montanhas e eu ali, impossibilitado de fazer o meu trabalho, limitei-me a contemplar o que os meus olhos não viam. Mas não desisti.

Comecei de imediato a preparar uma segunda oportunidade e para isso era necessário alterar o plano. Rapidamente defini um plano B. A ideia era regressar a Invercargill. Na manhã seguinte e cumprindo o plano definido, que me levaria a Wanaka, teria obrigatoriamente de passar novamente por Milford Sound. E assim foi.

Cansado, com poucas horas de sono, na manhã seguinte regressei a Milford Sound. Até parecia que já conhecia a estrada e nenhum Kea ousou interferir no meu ojectivo, a não ser um controlo de velocidade que me fez perder algum tempo, pois havia que prestar atenção à forma educativa com que as autoridades locais me abordaram. Era 100 e não 120! Aceitei e pedi desculpa.

Voltei ao lado esquerdo da estrada e uns quilómetros mais à frente, tudo estava muito diferente! Eu já via o céu, aqui ou ali pintado por algumas nuvens. Até apetecia subir ao Mitre Peak (cerca de 1.700 m de altitude) para tocar o céu. Um pico assombroso, ali bem diante de mim. Rapidamente me muni da dolly “Stage One” e iniciei o plano de timelapse tão desejado, tentando com que nenhum mosquito ousasse pousar na objectiva.

Apesar de todas as adversidades, a persistência e a perseverança haviam dado frutos. Fruto esse que poderá ser visto quando divulgar o meu próximo filme sobre a Nova Zelândia.

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