Regressei a El Chaltén ao final da tarde

El Chaltén: Monte Fitz Roy

De regresso do Fitz Roy, cheguei a El Chaltén ao final da tarde, com 25 quilómetros de trilhos percorridos e vários quilos ás costas. Estava exausto, mas feliz.

As experiências mais enriquecedoras são dotadas de uma intensidade arrebatadora que galga o tempo, salta horas e derruba espaços transportando-nos numa viagem acelerada que comprime o tempo. Parece matéria de ficção científica, mas eu havia chegado no dia anterior à Patagónia e preparava-me para partir no dia seguinte; no intervalo, haviam decorrido 15 dias. Confuso? Não! Tudo havia sido grandioso, extasiante, fora de medida. Um caldo de emoções a necessitar de ser coado, filtrado e assimilado, tal era a sua densidade. E nessa espessura de sentimentos os dias foram tragados, diluídos, esquecidos.

Fiz a viagem de regresso a El Calafate pela mesma estrada que me havia levado a El Chaltén. O caminho foi todo ele feito de olho no espelho retrovisor; não é que não levasse os olhos postos na estrada, em condução segura, mas as memórias recentes já faziam adivinhar saudades futuras. Abandonava El Chaltén com a certeza de que haviam sido os melhores e mais produtivos dias que havia passado durante toda a estadia na região. Que trilhos memoráveis; a experiência marcante de me pôr à prova, física e mentalmente, e a superação conseguida.
Regressava mais forte, era uma certeza.

Patagónia – Alguns momentos

A aventura na Patagónia (Chile e Argentina) foi uma experiência muito interessante sobre o ponto de vista das inúmeras dificuldades com que me deparei ao percorrer a enorme região. Durante as curtas estadias nos mais variados locais, foi possível, aqui ou ali registar alguns desses momentos. Aqui ficam alguns deles, registados em smartphone.

El Chaltén – Fitz Roy

Patagónia – The Tip Of The World – Levantei-me num ápice e engoli o pequeno almoço ainda mais rápido. Lancei-me desenfreadamente para o Monte Fitz Roy ou, como lhe chamam na região, Cerro Chaltén, tal como à povoação. É tão só uma das maiores montanhas localizadas na fronteira do Chile com a Argentina. Apesar da sua altitude relativamente baixa, cerca de 3.375 metros, é considerado por muitos alpinistas profissionais um desafio quase impossível de escalar. Percorri o centro da povoação a pé. O esforço acumulado dos dias anteriores ia cobrando os seus efeitos no aparente aumento de peso da mochila que carregava às costas. De mapa na mão, identifiquei o ponto de partida perfeitamente visível, pois tratava-se de um pórtico em madeira de cores vivas e garridas vistas a grande distância. Na manhã soalheira algumas nuvens bailavam ao sabor da leve brisa que soprava continuamente. O local, solene, mereceu fotografia de recordação. Desfiz-me de uma camisola, que o calor já se fazia sentir, acondicionei correctamente a mochila às minhas costas e avancei confiante para a encosta rochosa mesmo por cima de mim. Por se revelar mais seguro, optei por realizar um trajecto linear de aproximadamente 24 quilómetros, apesar de haver dois caminhos alternativos com base em pontos de partida diferentes, mas que se unem num só já muito perto do acampamento Poicenot. Cautela e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém…
Ao longo de todo o percurso estão identificados alguns miradouros de carácter oficial, simplifiquemos; no entanto, decidi aventurar-me fora do trilho em busca de pontos altos rochosos, aqui e ali surgidos por cima da copa das árvores. O objectivo era conseguir fotografias e planos em timelapse que retratassem o ondular das neblinas matinais junto aos picos das montanhas. Passado o acampamento, desço ao vale para chegar ao rio. Um breve relance de olhar e a percepção das óptimas condições de luz daquela manhã. As neblinas dançavam em redor dos picos mais altos, a água corria límpida e gélida o bastante para me despertar os sentidos quando refresquei a cara. A brisa fresca da manhã na pele e o regresso ao contacto com os elementos – não há nada mais “retemperador”. Fiz o registo de dois planos em timelapse, um vertical e outro horizontal, com o objectivo de os conjugar mais tarde. O rio corria sem sossego por entre as pedras do vale. Em redor, árvores vestidas com os tons de outono cobriam todo o vale até meia encosta, onde já surgia a neve e, de súbito, imponente, o maciço rochoso do Fitz Roy. O pico, fantasmagórico no seu incessante jogo de escondidas com as névoas. Nada substitui a experiência pessoal, cunho marcado da vivência in loco. O registo mecânico permite a guarda, para memória futura, de cada detalhe, elemento, pormenor. É um resgate feito ao passado, transmitido em herança às gerações vindouras. Mas a memória visual, mesmo que falível, mesmo que roída pelo tempo, é feita da vivência pessoal, intransmissível, incorruptível na essência – eu vi o Fitz Roy!

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Baía Ensenada

A primeira paragem foi na Bahía Ensenada junto ao canal de Beagle, marcava o meu relógio as 11h00m. A pequena enseada abriga o posto dos correios, uma construção muito rudimentar em madeira com uma pequena chaminé de onde saía algum fumo, repleta de bandeiras e sinalética argentina como que a marcar a sua posição no território e de onde é possível ver do outro lado do canal, o Chile.

Atrevi-me a ir vê-lo mais de perto e percorri o pequeno pontão de madeira que suporta o posto dos correios e se prolonga até bem dentro da enseada. Reparei numa inscrição que dizia “Unidad Postal Fin del Mundo”. Perguntei a mim próprio por que razão estaria ali um posto dos correios: não havia ninguém nas redondezas e o local parecia saído de um conto de fadas.

Admirei o canal, as montanhas do lado do Chile e encantei-me com as inscrições em vários idiomas que se podiam ler um pouco por toda a parte exterior da pequena casa. Afinal, ali não era partida, mas chegada dos sete cantos do Mundo.

Não muito longe dali, no lado direito da enseada, um pequeno miradouro por debaixo do arvoredo de Lengas que se curvava para cima da água pareceu-me o cenário ideal para registar um timelapse. Um pequeno trilho ladeando a água do canal conduzia até ao miradouro.

O vento estava forte e a água bastante agitada, o que causava uma gélida sensação de frio; no entanto, os cerca de 100 metros foram percorridos rapidamente, mesmo carregando a mochila e o tripé que pesavam uns bons 15 quilos.

No local, percebi que estava bem acima do nível da água e havia uma pequena ravina em pedra bem na minha frente. A água talvez distasse uns seis metros de mim. Por um lado, era bom, pois as gotículas provenientes das ondas e que eram elevadas pelo vento não molhariam a objectiva; por outro, sentiria mais o vento.

Ushuaia

Depois de quase um ano de planeamento e preparação eis que chega o mês de Abril e com ele a possibilidade de conhecer mais de perto uma região que remete para o imaginário do contacto com a natureza e a vida selvagem, a Patagónia, a ponta do Mundo.

Associamos a Patagónia a imagens de enormes planícies, típicas da região meridional da América do Sul, ricas em pastagens polvilhadas por tufos dourados, a que em cada curva da estrada surgem animais selvagens por entre cercas que o Homem fez questão de erguer, como demarcações definitivas obrigadas por uma vizinhança conflituosa.

É esta mesma região, separada entre si por muitos quilómetros de trilhos e estradas, planícies varridas pelo vento, que acolhe montanhas íngremes, lagos gelados, enormes glaciares e a Lenga, árvore representativa do bosque andino patagónico que pelo tom da sua folhagem na incidência da luz solar faz acreditar que aquela é, de facto, a Terra do Fogo.

Aqui, estão presentes todos os elementos da natureza – terra, água, ar e fogo. É esta terra, dividida pela enorme cordilheira andina, que apresenta as duas faces da ponta do Mundo: inóspito e ao mesmo tempo completamente irresistível.

Saído de Portugal fiz escala no Rio de Janeiro, Brasil, para visitar parte da minha família que há décadas lá vive. Cada reencontro é, sempre, uma descoberta.

Dois dias depois, rumei a latitudes mais a sul: uma escala técnica em Buenos Aires, Argentina, e rapidamente estava a caminho de Ushuaia, a terra do fogo, dos pinguins e do canal de Beagle. Não resisti a imaginar-me a bordo de um qualquer casco à deriva no Atlântico e varrido pelos ventos alísios.

Ushuaia foi o primeiro pedaço de terra que pisei na Patagónia. O seu nome provém do idioma indígena yagan (ushu + aia) que significa baía profunda. Assaltou-me a sensação de que, afinal de contas, eu não passava de um simples colono, mas agora munido de uma câmera fotográfica e que, tal como os antepassados que a habitaram, chegava à cidade mais austral do planeta.

Seria aqui em Ushuaia que viveria intensamente os dias seguintes.

Noruega

Na procura de lugares com fraca poluição luminosa, dei por mim a viajar para a Noruega, com o objectivo de realizar um filme que de certa forma chamasse a atenção de todos nós, para este problema que cresce de dia para dia em todo o planeta. A luz artificial. Quase todas as cidades estão repletas de luz artificial que impossibilita a visualização nocturna das estrelas e planetas que pintam o céu à noite. Um dos fenómenos naturais mais extraordinários visíveis no hemisfério Norte, são as Auroras Boreais (as luzes do Norte) e foram a referência para todo o filme que eu pretendia produzir. Por essa razão, era necessário ir a sítios remotos registar planos de timelapse a estas partículas carregadas provenientes do Sol e que quando tocam os campos magnéticos dos pólos, brilham numa paleta de cores fantástica.
Tal como é visível nesta fotografia que completa este texto, a melhor forma de percorrer grandes distâncias nas paisagens brancas da Noruega, é utilizar trenós puxados por cães. Neste caso em particular foi apenas uma viagem orientada por uma guia, para descobrir novas paisagens, que pudessem ser locais de excelência para o registo de timelapse nocturno. Lembro-me que sensivelmente a meio da expedição, os cães já não tinham capacidade física e eu próprio tive de saltar para a neve e empurrar o trenó até ao ponto de partida.
Quando cheguei á base, quase todos os cães deitaram-se na neve tal era o cansaço. Tive de ir buscar forças e coragem para lhes dar um “mimo” e agradecer todo o seu esforço. Uma memória que recordarei para sempre.

Nordlys

Terra, o nosso planeta.
É o único planeta no nosso sistema solar, conhecido por albergar vida.
Todas as coisas que precisamos para sobreviver são-nos fornecidas sob uma fina camada de atmosfera que nos separa do vazio inabitável do espaço.
A Terra é composta por sistemas complexos e interactivos que são muitas vezes imprevisíveis.
Ar, água, terra e vida, incluindo os seres humanos, unem forças para criar um mundo em constante mudança e que nos esforçamos por entender.
Consegues imaginar a nossa Terra sem os seres humanos? Olha para estas paisagens!
Contempla a sua beleza! Contempla-a com paixão.
Esta é a Terra, a nossa casa, o nosso lugar… Por favor, mantém-na viva! Olha para ela com paixão, com a paixão de quem ama e preserva-a!
O nosso planeta está numa rápida rotação e o núcleo de níquel-ferro fundido dá origem a um campo magnético, que o vento solar distorce em forma de lágrima.
O vento solar é uma corrente de partículas carregadas, continuamente ejectadas do sol.
O campo magnético não se desvanece para o espaço, mas tem fronteiras bem definidas.
Quando as partículas carregadas do vento solar são capturadas pelo campo magnético da Terra, colidem com as moléculas de ar acima dos polos magnéticos do nosso planeta.
Estas moléculas de ar, em seguida, começam a brilhar e são conhecidas como as auroras, ou as luzes do Norte e do Sul.
Esta é a Terra, a nossa casa, o nosso lugar… Por favor, mantém-na viva! Olha para ela com paixão.
Com a paixão de quem ama… e preserva-a!
Desliga as luzes e desfruta de um fenómeno único na Terra, com a paixão daqueles que amam.
E a Terra é a nossa nave espacial, o nosso globo bonito, delicado, dançando elegantemente em torno do sol para uma eternidade finita. É a nossa linda bola de água e ar. É tudo o que temos e tudo o que poderemos ter. Compete-nos a nós preservá-la e protegê-la. Porque esta é a nossa única casa. Nosso planeta… Nossa Mãe… Nossa… Terra.
Bem-vindo a casa.

Picos de Europa

 

Disseste que não seria capaz, que a montanha escolhe os seus na vida e na morte.
Disseste:
“Apenas os eleitos aspiram a conhecer a montanha”.
“Apenas eles são ungidos pelo óleo da sabedoria” – disseste – e eu, sorri.
Falei-te das manhãs claras e dos frios glaciais, das estrelas e das flores, dos rios e das pedras, dos animais.
Falei-te do silêncio que é a voz da montanha e do sussurro eterno do bosque – inquieto rumor, queixume das árvores, lamento do vento.
Ouves este som? Tão terno, etéreo.
No entanto, capaz de furar o mais duro rochedo, subir ao ninho da águia beijar a toca do coelho.
Guiar rios da nascente à foz.
Abrir rombos de espanto na alma contemplativa quando alvoradas mansas se espalham, lentamente, pela erva fresca de orvalho e os pássaros iniciam um bailado majestático “trinando” delírios.
Todos os dias!
Todos os dias, sem falhar um, o encantamento se repete: o abeto, a truta, o esquilo, o colosso da montanha.
E todos os dias se renova o espanto, húmus da minha alma, parceiro da condição que é a nossa, viajantes improváveis.
Sorris.
E a crença que és em mim ilumina a certeza do caminho na crista, tocando o céu, furando nuvens de algodão, na vontade resoluta do invisível, que o mais apertado dos abraços celebra.
Morra eu neste instante, e o caminho está feito.