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Etiqueta: Lontra

A lontra (Lutra lutra) é um mamífero da família Mustelidae

Lontra

Paulo Ferreira (Fotografia e vídeo de natureza):

Era um domingo à tarde. Por volta das 18H00. Rumei em direção aos moinhos de Jancido, em Gondomar. O objetivo era bastante claro: – fotografar o Papa-figos, ou então uma ou outra Lontra que porventura subisse o rio Sousa. Havia combinado com o Joel, uma visita ao local, pois havia a indicação de que o Papa-figos tinha sido avistado nas proximidades. Eu não estava muito crente em conseguir uma fotografia da ave, mas pelo contrário, estava confiante que a probabilidade de avistar a Lontra era bem maior. Depois de nos cruzarmos num dos trilhos junto ao rio Sousa e de colocarmos a conversa em dia, não demorou muito tempo até eu perceber que surgiam alguns ruídos na água. Mesmo que pouco audíveis, eu sabia bem que a presença da Lontra era uma realidade. Já conheço os sons que fazem, quando andam à pesca. Ainda estava a tentar eliminar algum ruído que me distraía, quando de repente os meus olhos confirmaram a presença do animal junto à margem, debaixo de um salgueiro. Dado que era final de tarde, havia muitas sombras e como tal era impossível observá-la devidamente. Contudo, aqui ou ali ela surgia por entre a vegetação e iluminada pelos raios de sol, eu confirmava o seu movimento. Estava de facto a subir o rio e a alimentar-se de peixe.

De forma esquiva, desloquei-me um pouco mais para montante do rio na espectativa de a conseguir observar e fotografar numa área menos coberta de vegetação. Mas rapidamente percebi que estava a lidar com um animal selvagem e como tal, não é fácil entrar no seu mundo. Isto porque quando se aproximou da zona mais aberta do rio, decidiu mergulhar e não a vi durante uns bons 20 metros. Mas não desisti e continuei a subir o rio junto à margem e a saltar por entre as urtigas ou as silvas que por ali abundavam. Já não sentia as pernas e os braços, mas isso não era problema, pelo menos naquele momento. Mais tarde, já não pensaria dessa maneira. Centenas de picadelas mais tarde e de quase me deitar na erva que ladeava o rio, eis que surge o momento pelo qual esperava. Diante de mim, do outro lado da margem, debaixo de alguns arbustos sobranceiros ao rio, surge a Lontra. Matreira e perspicaz, escondeu-se numa reentrância do rio e por ali ficou a mastigar um peixe. Com um olho na objetiva e outro na Lontra, não desisti até que um ou dois minutos mais tarde, ela decide vir para o local onde os raios de sol entravam. E ficou iluminada durante uns segundos, tempo suficiente para conseguir algumas fotografias como as que incluo neste artigo.

Outros tantos segundos mais tarde, e para surpresa minha, saiu do buraco sombrio onde estava e começou a nadar na minha direção. Foi quando consegui a 2ª fotografia (em baixo). Ela olhou-me bem nos olhos e permitiu que a fotografasse. Mas não foram mais do que meia dúzia, pois no momento seguinte, virou para a nascente do rio e desapareceu debaixo de água. Nunca mais a vi nessa tarde.  Mas para mim foi o tempo suficiente. E a natureza deve ser assim. Um vislumbre.

Lontra

Joel Neves (Biólogo):

A lontra (Lutra lutra) é um mamífero da família Mustelidae (família que engloba as doninhas, fuinhas e furões) que habita diferentes sistemas aquáticos como rios, lagos, pauis e estuários e que se distribui amplamente pelo nosso território. Estes animais terão evoluído no sentido de se adaptarem a este tipo de habitats, tendo desenvolvido características que os permitiram colonizar estes meios. Com um corpo fusiforme, uma cauda forte, mas flexível e revestido por pelugem espessa que lhes permite regular eficientemente a temperatura corporal e resistir a baixas temperaturas da água, as lontras ostentam um singular hidrodinamismo. Estas características morfológicas, aliadas à presença de membranas digitais, fazem deste mustelídeo um nadador exímio, capaz de nadar aproximadamente 8h sem interrupções. São, também, predadores extremamente vorazes, alimentando-se essencialmente de peixe, embora possam predar anfíbios e invertebrados, assim como mamíferos, aves aquáticas e répteis em casos muito particulares. São animais crepusculares e noturnas, sendo mais provável de serem observadas nas primeiras e últimas horas do dia. As lontras podem reproduzir-se durante todo o ano consoante a disponibilidade de recursos alimentares, sendo a primavera e o verão as épocas mais favoráveis para tal. São dependentes de locais com vegetação ripícola (vegetação associada às linhas de água) bem desenvolvida, uma vez que é aí que formam as suas tocas que servem de refúgio e de local de reprodução.
A sua presença depende essencialmente da disponibilidade de recursos e do estado dos seus habitats, sendo por isso a qualidade da água e da galeria ripícola essenciais para ocorrência desta espécie. Embora esteja sobre abrigo da Habitats e as convenções de Berna e Washington (CITES), está sujeito a diferentes tipos de ameaça. A poluição aquática, seja ela de qualquer tipo for (urbana, industrial ou agropecuária) pode afetar direta (degradação da capacidade de isolamento térmica por parte do pelo) ou indiretamente (diminuição das populações das suas presas) as lontras. A destruição da galeria ripícola, seja pela sua conversão em campos agrícolas, em zonas urbanas ou para a regularização das linhas de água, é também uma das principais ameaças sobre esta espécie. Mais recentemente, a presença de espécies invasoras, mais concretamente de uma outra espécie de mustelídeo, o visão-americano (Neovison vison), é uma forte ameaça uma vez que compete com as lontras, dado que são ecologicamente muito semelhantes e partilham os mesmos hábitos, dieta e locais de ocorrência e nidificação.
Concluindo, esta espécie cativante e emblemática das nossas linhas de água deve ser considerada uma espécie-bandeira, ou seja, deve representar uma causa ambiental e ser tida em conta na sensibilização, não só para a sua própria conservação, bem como dos seus habitats, e com isto fazer com que a população geral, e em particular aqueles que tenham o poder de decisão, tomem medidas que salvaguardem a espécie e que os ecossistemas aquáticos sejam geridos de uma forma consciencializada.

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A Lontra Europeia ou Lontra Euroasiática

Vale do Rio Sousa, nas proximidades dos “Moinhos de Jancido”. O relógio marcava 08H30 e a temperatura rondava os 4 ºC. Ao descer a serra, por entre as árvores e a caminho de um local isolado para fotografar aves, reparei que havia alguma ondulação nas margens do Rio. Cautelosamente, procurei descer ainda mais na ânsia de encontrar um sitio mais aberto, de onde pudesse clarificar o motivo para tal ondulação. Por momentos não vislumbrei absolutamente nada. A ondulação havia desaparecido.

Desanimado, comecei a caminhar ao longo da margem do Rio. Rio acima, alguns minutos depois, como por magia, os meus olhos fixaram-se nos olhos de uma Lontra. Inacreditável! Tentei não fechar os olhos. Não queria acreditar que diante de mim, talvez a uns 50 metros, a cabeça de uma Lontra deslizava sobre a água fria, naquela manhã de Janeiro. Inconscientemente, levei a câmera fotográfica aos olhos e comecei a fotografar. Incrédulo, duas fotografias depois, ela mergulhou e não mais a voltei a ver. Por sorte, a objetiva que estava a utilizar no momento, era de 600mm.

O seu gosto pela água (se for preciso, aguenta-se mais de cinco minutos submersa), aliada ao facto de ter uma dieta maioritariamente carnívora, tornam-na um animal de hábitos especiais. A começar pela sua performance enquanto predadora: com olhos que vêem mais no breu da noite, com olfato que chega longe (têm um dispositivo ao nível do nariz que deteta vibrações abaixo da linha de água), e com uma audição superior à de muitas outras espécies, a Lontra espera pelo pôr do sol para utilizar as suas armas. As presas são sobretudo peixes ou crustáceos, em menor escala outros mamíferos, e eventualmente répteis à falta de melhor.

Aqui fica a fotografia.