Etiqueta: Patagónia

Noticia “Sábado” – Premio em Hollywood

Publicação no “Sábado”, onde é referido o segundo prémio que Paulo Ferreira obteve em Los Angeles, com o filme “Patagónia – The Tip Of The World”. Toda a notícia pode ser lida em: Sábado

[…]O produtor português Paulo Ferreira foi distinguido pela segunda vez com um prémio no âmbito de um festival que decorre em Los Angeles, Estados Unidos, e que é considerado como os “Óscares” dos documentários independentes.
Em declarações à agência Lusa, Paulo Ferreira, que venceu o galardão de melhor documentário curto na categoria de natureza no Hollywood International Independent Documentary Awards, referiu que recebeu a notícia “com surpresa, mas também entusiasmo” por ser “uma honra receber um prémio que valoriza quem trabalha de forma independente e tem coragem de arriscar”[…

 

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Patagónia – A Ponta Do Mundo noticia no jornal Vivacidade

O jornal Vivacidade publicou um artigo sobre a estreia do filme “Patagónia – The Tip Of The World”. O artigo na integra pode ser consultado em: Noticia Vivacidade

[…]O fotógrafo gondomarense Paulo Ferreira escolheu o Auditório Municipal de Gondomar para estrear o seu mais recente trabalho intitulado “Patagónia – A Ponta do Mundo”. A estreia decorreu no dia 3 de novembro.
O documentário “Patagónia – A Ponta do Mundo”, o mais recente projeto de Paulo Ferreira, foi apresentado ao público no Auditório Municipal de Gondomar. A iniciativa ficou também marcada pelo lançamento do livro de fotografias do premiado fotógrafo gondomarense.[…]

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El Chaltén – Fitz Roy

Fits Roy – El Chaltén

Patagónia – The Tip Of The World – Levantei-me num ápice e engoli o pequeno almoço ainda mais rápido. Lancei-me desenfreadamente para o Monte Fitz Roy ou, como lhe chamam na região, Cerro Chaltén, tal como à povoação. É tão só uma das maiores montanhas localizadas na fronteira do Chile com a Argentina. Apesar da sua altitude relativamente baixa, cerca de 3.375 metros, é considerado por muitos alpinistas profissionais um desafio quase impossível de escalar. Percorri o centro da povoação a pé. O esforço acumulado dos dias anteriores ia cobrando os seus efeitos no aparente aumento de peso da mochila que carregava às costas. De mapa na mão, identifiquei o ponto de partida perfeitamente visível, pois tratava-se de um pórtico em madeira de cores vivas e garridas vistas a grande distância. Na manhã soalheira algumas nuvens bailavam ao sabor da leve brisa que soprava continuamente. O local, solene, mereceu fotografia de recordação. Desfiz-me de uma camisola, que o calor já se fazia sentir, acondicionei corretamente a mochila às minhas costas e avancei confiante para a encosta rochosa mesmo por cima de mim. Por se revelar mais seguro, optei por realizar um trajeto linear de aproximadamente 24 quilómetros, apesar de haver dois caminhos alternativos com base em pontos de partida diferentes, mas que se unem num só já muito perto do acampamento Poicenot. Cautela e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém…

Ao longo de todo o percurso estão identificados alguns miradouros de caráter oficial, simplifiquemos; no entanto, decidi aventurar-me fora do trilho em busca de pontos altos rochosos, aqui e ali surgidos por cima da copa das árvores. O objetivo era conseguir fotografias e planos em timelapse que retratassem o ondular das neblinas matinais junto aos picos
das montanhas. Passado o acampamento, desço ao vale para chegar ao rio. Um breve relance de olhar e a perceção das ótimas condições de luz daquela manhã. As neblinas dançavam em redor dos picos mais altos, a água corria límpida e gélida o bastante para me despertar os sentidos quando refresquei a cara. A brisa fresca da manhã na pele e o regresso ao contacto com os elementos – não há nada mais retemperador. Fiz o registo de dois planos em timelapse, um vertical e outro horizontal, com o objetivo de os conjugar mais tarde. O rio corria sem sossego por entre as pedras do vale. Em redor, árvores vestidas com os tons de outono cobriam todo o vale até meia encosta, onde já surgia a neve e, de súbito, imponente, o maciço rochoso do Fitz Roy. O pico, fantasmagórico no seu incessante jogo de escondidas com as névoas. Nada substitui a experiência pessoal, cunho marcado da vivência in loco. O registo mecânico permite a guarda, para memória futura, de cada detalhe, elemento, pormenor. É um resgate feito ao passado, transmitido em herança às gerações vindouras. Mas a memória visual, mesmo que falível, mesmo que roída pelo tempo, é feita da vivência pessoal, intransmissível, incorruptível na essência – eu vi o Fitz Roy!

Posto a caminho, atravessei rio Blanco para chegar ao último acampamento antes de atingir a base do Fitz Roy: Camping Rio Blanco. O sol ia alto e o calor inclemente era um braseiro que trazia sob a roupa; estava a ser tomado pelo cansaço. Obriguei-me a parar, descansar e a beber água, a hidratação é fundamental e eu não me esqueci dela durante os dias anteriores. Um painel de madeira ali perto informava um quilómetro para chegar ao fim do trilho e sugeria ao leitor que verificasse o seu estado físico. Agora??? Depois de 11 quilómetros percorridos é que sou alertado para isto? Vim eu do outro lado do mundo para me atirarem este desaforo à cara? Se tinha chegado até ali, iria certamente percorrer o último quilómetro tal como havia feito os anteriores. Qual é a dificuldade?, atirei, altivo, em modo desafiador aos deuses da fortuna. Por um mísero quilómetro… Por quem me tomam? Resoluto, a mastigar quezília, fiz-me à vida que não me atenho a pormenores. De súbito… estanquei. As árvores tinham desaparecido e o que se plantava diante dos meus olhos exauriu-me todas as forças: o trilho seguia montanha acima numa inclinação que de acentuada não tinha nada – tinha tudo! Como uma cobra, serpenteava a encosta. Ah!, pois… admiti a custo: o tal quilómetro em falta!

Sensivelmente a meio do trilho entrava-se em zona de neve e o esforço para continuar estava a ser colossal. A cada passada a mochila aumentava de peso e a falta de aderência das botas ao piso era uma constante. Por antecipação comecei a temer a descida: por aquele andar, iria a deslizar encosta abaixo. Delegando uma nova função no tripé, usava-o agora como suporte para saltar de pedra em pedra. Tremendo o esforço para tremenda subida. Nunca nas minhas caminhadas havia passado por um esforço tão grande para percorrer apenas um quilómetro. O desânimo arribou áspero já perto do fim do trilho, quase a atingir o cimo do monte coberto pela neve. Estava estafado, exausto do esforço e as condições climáticas estavam a mudar, com o vento muito mais forte e o frio muito intenso. Apenas sentia a minha cara por aposição dos dedos, bem prensados na carne, tão gélida estava. Eu queria desistir. E queria continuar. Mas já não tinha forças. Estava na mais completa solidão, não o sentido da ausência de alguém a nosso lado, mas outro muito mais intenso, absoluto e íntimo: o confronto interior. Desistir não significava apenas a falência do projeto, era eu próprio quem desistia, falhava. E isso eu não queria para mim. Sosseguei a mente, relaxei… e lá fui montanha acima de olhos postos na biqueira das botas, procurando forças na alma. Pelas minhas contas faltariam cerca de 100 metros para o topo. Em regime mecânico ausente de qualquer emoção percorri o que restava do trilho num declive cada vez menos acentuado. Estava a chegar e, aos poucos, ia recobrando o ânimo. O topo que me aguardasse porque eu ia a caminho. Em triunfo venci o cansaço e ergui a face para contemplar a minha vitória… a montanha é impiedosa e exige cruelmente a sua parte; ninguém habita a montanha sem que esta o permita – diante dos meus olhos, poços fundos para o meu íntimo, o trilho prosseguia atroz por mais alguns metros, até ao objetivo final. Esforço denodado este, o de querer vencer.

Quinze minutos depois, a Laguna de Los Tres. Naturalmente bela, de um verde que emergia da alva neve que tudo cobria como um manto estendido. Que visão fantástica, incrivelmente natural, deslumbrante. A neve levantada do chão pelo vento forte estilhaçava- se de encontro à minha cara em minúsculas e afiadas lâminas de gelo, mas eu não as sentia. Havia cumprido o meu objetivo e agora era o momento de o usufruir. Fotografei durante cinco minutos, aproximadamente, até começar os preparativos para registo em timelapse. Estabilizado o tripé no chão coberto por neve e agarrando–me a ele para que não oscilasse com o vento forte, ali fiquei durante cerca de 10 minutos, estático o mais possível. As nuvens surgiam vindas de trás da montanha e rodeavam o cume mais alto do Fitz Roy num constante vai e vem que parecia não ter fim. Maravilhado, colei os olhos postos no enorme maciço rochoso.

Cento e cinquenta fotografias registaram o momento. Objetivo cumprido. Estava na hora de encetar o regresso ao ponto inicial. Feliz, mas gelado. De olhos postos no Fitz Roy iniciei a descida, desconfiado. Perturbava-me a sensação de falta, de ausência, como se deixasse ao abandono não uma peça do equipamento, mas emoções, estados de alma, intangíveis na essência. É como um permanente estado de alerta para um perigo iminente, mas cuja origem se desconhece e nos obriga a uma obsessiva atenção. Aquela sensação acompanhou-me até ao acampamento, próximo da tabuleta que alertava para o estado da condição física. O mais correto seria acrescentar “… e o anímico também”.

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Ushuaia

Ushuaia

Depois de quase um ano de planeamento e preparação eis que chega o mês de Abril e com ele a possibilidade de conhecer mais de perto uma região que remete para o imaginário do contacto com a natureza e a vida selvagem, a Patagónia, a ponta do Mundo.

Associamos a Patagónia a imagens de enormes planícies, típicas da região meridional da América do Sul, ricas em pastagens polvilhadas por tufos dourados, a que em cada curva da estrada surgem animais selvagens por entre cercas que o Homem fez questão de erguer, como demarcações definitivas obrigadas por uma vizinhança conflituosa.

É esta mesma região, separada entre si por muitos quilómetros de trilhos e estradas, planícies varridas pelo vento, que acolhe montanhas íngremes, lagos gelados, enormes glaciares e a Lenga, árvore representativa do bosque andino patagónico que pelo tom da sua folhagem na incidência da luz solar faz acreditar que aquela é, de facto, a Terra do Fogo.

Aqui, estão presentes todos os elementos da natureza – terra, água, ar e fogo. É esta terra, dividida pela enorme cordilheira andina, que apresenta as duas faces da ponta do Mundo: inóspito e ao mesmo tempo completamente irresistível.

Saído de Portugal fiz escala no Rio de Janeiro, Brasil, para visitar parte da minha família que há décadas lá vive. Cada reencontro é, sempre, uma descoberta.

Dois dias depois, rumei a latitudes mais a sul: uma escala técnica em Buenos Aires, Argentina, e rapidamente estava a caminho de Ushuaia, a terra do fogo, dos pinguins e do canal de Beagle. Não resisti a imaginar-me a bordo de um qualquer casco à deriva no Atlântico e varrido pelos ventos alísios.

Ushuaia foi o primeiro pedaço de terra que pisei na Patagónia. O seu nome provém do idioma indígena yagan (ushu + aia) que significa baía profunda. Assaltou-me a sensação de que, afinal de contas, eu não passava de um simples colono, mas agora munido de uma câmera fotográfica e que, tal como os antepassados que a habitaram, chegava à cidade mais austral do planeta.

Seria aqui em Ushuaia que viveria intensamente os dias seguintes.

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