Disseste que não seria capaz, que a montanha escolhe os seus na vida e na morte. Disseste: “Apenas os eleitos aspiram a conhecer a montanha”. “Apenas eles são ungidos pelo óleo da sabedoria” – disseste – e eu, sorri. Falei-te das manhãs claras e dos frios glaciais, das estrelas e das flores, dos rios e das pedras, dos animais. Falei-te do silêncio que é a voz da montanha e do sussurro eterno do bosque – inquieto rumor, queixume das árvores, lamento do vento. Ouves este som? Tão terno, etéreo. No entanto, capaz de furar o mais duro rochedo, subir ao ninho da águia beijar a toca do coelho. Guiar rios da nascente à foz. Abrir rombos de espanto na alma contemplativa quando alvoradas mansas se espalham, lentamente, pela erva fresca de orvalho e os pássaros iniciam um bailado majestático “trinando” delírios. Todos os dias! Todos os dias, sem falhar um, o encantamento se repete: o abeto, a truta, o esquilo, o colosso da montanha. E todos os dias se renova o espanto, húmus da minha alma, parceiro da condição que é a nossa, viajantes improváveis. Sorris. E a crença que és em mim ilumina a certeza do caminho na crista, tocando o céu, furando nuvens de algodão, na vontade resoluta do invisível, que o mais apertado dos abraços celebra. Morra eu neste instante, e o caminho está feito.