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Numa noite gélida de inverno

Numa noite gélida de inverno, o silêncio do Parque Natural do Alvão parece suspender o tempo. O frio cristaliza o ar e, acima, o céu escreve a sua própria caligrafia luminosa: longos arcos de estrelas e planetas, com centro na Polar, denunciam, com elegância lenta, a rotação incessante da Terra. Não é o céu que se move. Somos nós, passageiros de um planeta em viagem.
Em primeiro plano, as árvores. Algumas iluminadas, outras quase despidas erguem-se como sentinelas antigas. Os ramos nus, desenhados a carvão contra a abóbada noturna, emolduram a dança cósmica e acrescentam profundidade à paisagem. Há beleza na escassez: folhas ausentes que revelam a estrutura, o essencial, a nudez do inverno.
A fotografia guarda esse instante raro em que o humano toca o infinito. Um encontro entre a quietude da serra e o movimento do universo, onde o frio não afasta, antes aproxima, e a noite ilumina aquilo que o dia não ousa mostrar.
É este, o nosso mundo!

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Almourão Selvagem – A Wildlife Sanctuary

Almourão Selvagem

2025 foi um ano extraordinário. Um ano de histórias contadas com tempo, silêncio e respeito pela natureza — muitas delas nascidas no coração da Região Autónoma dos Açores. Um ano de aprendizagem, de encontros improváveis e de imagens que ficaram gravadas para lá das minhas objetivas.
Mas 2026 já se anuncia maior. Mais exigente. Mais desafiador.
E com isso vem também um peso bonito: o da responsabilidade. A responsabilidade de fazer melhor. De ir mais longe. De honrar cada projeto com ainda mais dedicação.
Mais paixão. Mais entusiasmo. Mesmo nos dias em que regressamos a casa de mãos vazias, sem imagens, sem ideias. Porque a vida (tal como a natureza), não se revela sempre de imediato. Nem tudo é fácil. Nem tudo vem sem esforço. E quase nada acontece sem trabalho.
A vida é feita de contrastes: alegrias e silêncios, conquistas e frustrações. E o caminho, esse, faz-se sempre para a frente, com os olhos erguidos, coração atento e a certeza de que cada passo conta.
Este é um dos desafios de 2026. Almourão Selvagem – A Wildlife Sanctuary

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Descobrindo Orion

Há um trabalho silencioso e paciente por trás de cada imagem da Nebulosa de Órion. Um trabalho que começa muito antes do clique final — começa nas noites frias e límpidas, quando o ar corta a pele e o céu parece mais próximo, mais honesto. São nessas horas, longe do ruído do mundo, que a câmara aponta para aquilo que, a olho nu, insistimos em chamar de estrela.

Montar o equipamento é um ritual: tripé firme, câmara preparada, objetiva alinhada, ferramentas de tracking a compensar a rotação da Terra com uma precisão quase humilde. Não há tecnologia de outro mundo, não há telescópios espaciais nem instrumentos milionários. Há apenas fotografia, persistência e a vontade de ir mais além do que os nossos olhos permitem.

Cada imagem individual é frágil. O sinal é ténue, quase tímido, afogado no ruído eletrónico e nas imperfeições inevitáveis do equipamento simples. Mas é aqui que entra a segunda parte da viagem — invisível, silenciosa, mas absolutamente transformadora: o stacking. Centenas de exposições curtas, captadas ao longo de horas, são alinhadas e somadas com rigor matemático. O ruído dilui-se. O sinal emerge. Aquilo que parecia impossível começa, lentamente, a revelar-se.

É neste ponto que a fotografia se encontra com o conhecimento informático. Algoritmos, processamento de imagem, calibração, paciência. No meu caso, um passado profissional ligado à informática torna-se uma extensão natural do olhar. O computador deixa de ser apenas uma ferramenta; passa a ser um laboratório onde a luz é decifrada, camada após camada.

E tudo começa, curiosamente, com um engano. Olhamos para o céu e vemos uma estrela. Um ponto branco, aparentemente simples. Mas a curiosidade muda tudo. Quando nos interessamos pela descoberta, procuramos conhecimento — e com ele, ganhamos profundidade. Aquilo que era uma estrela revela-se uma nebulosa. Ou talvez uma galáxia distante. Uma cidade de gás, poeira e nascimento estelar, suspensa no vazio.

Nesse momento, algo muda. É como se os nossos olhos vissem a luz pela primeira vez. Não uma luz qualquer, mas uma luz antiga. No caso da Nebulosa de Órion, uma luz que partiu dali há cerca de 1400 anos, quando a história humana era outra, quando o mundo era outro. E, ainda assim, essa luz chega agora, silenciosa, paciente, à minha modesta câmara.

A astrofotografia é isso: um diálogo entre tecnologia simples e conhecimento profundo, entre frio e espera, entre erro e revelação. Um exercício de humildade cósmica. Porque quando por fim vemos a imagem final, já não estamos apenas a observar o céu — estamos a testemunhar o tempo.

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A Lua e a Torre de Siza Vieira

A Lua e a Torre de Siza Vieira

A decisão de fotografar a Lua com a Torre de Siza Vieira ao fundo foi, acima de tudo, uma busca por capturar a harmonia entre a natureza e a arquitetura. A ideia surgiu há bastante tempo e o planeamento foi ajustado em função da minha visita ao Refúgio do Raposo, um local algures na Terra e que tem vista para o firmamento. Num momento de pura inspiração aquando da minha estadia em Proença-a-Nova, quando percebi que a Lua, a torre (design de Siza Vieira) poderiam formar um alinhamento perfeito, decidi meter os pés ao caminho e ir em busca do melhor local mesmo que no meio dos montes ao redor da Serra das Talhadas. A fotografia não seria apenas uma imagem, mas uma representação visual da união entre a natureza e a genialidade humana. E para isso eu tinha de me aventurar por montes e vales, ao lusco fusco, numa bela noite de Verão.

Confesso que chegar até ao local foi um verdadeiro desafio. Tive que encontrar o ponto exato onde a câmera, a Lua e a torre formassem o alinhamento perfeito, o que não foi fácil devido à inacessibilidade do local e à necessidade de ajustar a posição da câmera com precisão. Eu tinha a tecnologia do meu lado, mas isso não era suficiente. A espera pela hora exata foi um teste de paciência, já que o alinhamento era algo efémero, que dependia de variáveis como a luminosidade e a posição exata da Lua no céu. Rapidamente verifiquei que quando a mesma surgiu por detrás da Serra das Talhadas, estava uns metros à direita da torre e isso obrigou-me a deslocar rapidamente para a esquerda em busca do enquadramento perfeito. Um exercício mirabolante, quando estamos no meio do mato.

Depois de vários cliques (não muitos pois a Lua eleva-se no horizonte muito rapidamente) e quando finalmente editei a foto e vi o resultado, senti uma enorme satisfação. Um projeto cumprido. Uma sensação de realização pessoal, que seria ao mesmo tempo uma concretização lendária. A imagem, com a sua composição perfeita, transmitiu exatamente o que eu queria: a beleza da fusão entre a criação Humana e o que a natureza nos oferece todas as noites. Um momento fugaz mas eterno através da minha objetiva.

Link para o texto de Miguel Gonçalves (clique na imagem):

A Lua e a Torre de Siza Vieira

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Parque Natural do Alvão a Preto e Branco

As fotografias a preto e branco que realizei no dia 1 de março de 2025 no Parque Natural do Alvão, são uma homenagem à intemporalidade da paisagem e à ligação ancestral entre o homem e a terra. A ausência de cor sublinha a essência dos elementos, revelando texturas, contrastes e formas que contam histórias silenciosas. Cada imagem captura não apenas a beleza agreste das serranias e dos cursos de água que as rasgam, mas também os pormenores subtis – uma árvore retorcida pelo vento, projetando a sombra na água corrente, a rugosidade de um muro de pedra, as marcas deixadas pelo tempo nas casas e nos trilhos esquecidos.

O preto e branco reforça a sensação de permanência e transitoriedade simultaneamente. A luz desenha sombras longas que evocam a passagem lenta dos dias, enquanto as rochas e as águas cristalinas testemunham séculos de mudança. Esta naturalidade, outrora parte inseparável do quotidiano, desvanece à medida que as pessoas se afastam da terra e dos ritmos naturais. O Alvão, com a sua paisagem quase imutável, torna-se assim um refúgio de memórias e de silêncio, onde o passado e o presente se entrelaçam. Através destas fotografias, procuro eternizar esse vínculo frágil, dando voz a uma natureza que resiste ao esquecimento.










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Aurora Boreal no Parque Natural do Alvão

Ontem (10 de outubro de 2024), havia a probablidade de voltarmos a ver auroras boreais em Portugal. Confesso que inicialmente fiquei com dúvidas, pois a verificar-se era a 2ª vez num ano… Contudo, depois de consultar os meus recursos nesta matéria, e de trocar umas mensagens com o Cristiano Saturno (um “bom maluco” pelas auroras boreias do outro lado do Atlântico), rapidamente percebi que me tinha de por a caminho tão rápido quanto possivel. A janela de oportunidade era muito pequena e o tempo estava muito encoberto na zona de Gondomar. Decidi o Parque Natural do Alvão. E acreditem que foi fantástico assistir a este fenómeno. A olho nu era ligeiramente notória uma ténue coloração, mas através da camera fotográfica, parecia magia.




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Naturalmente Graciosa – Trailer

Naturalmente Graciosa – Trailer

A ilha Graciosa, situada no arquipélago dos Açores, é um tesouro natural onde a fauna, a flora e o mar se entrelaçam numa paisagem exuberante. Com uma biodiversidade única, esta ilha é um exemplo vivo da importância de preservar os espaços naturais para combater as alterações climáticas.

A fauna da Graciosa é caracterizada pela presença de aves marinhas, como os cagarros ou os garajaus, ou ainda o raro painho-de-monteiro e alma-negra, que encontram nas suas falésias e em especial no Ilhéu de Baixo e Ilhéu da Praia, um local ideal para nidificar. Além disso, diversas espécies de aves migratórias fazem desta ilha um ponto de paragem durante as suas rotas migratórias, evidenciando a sua importância como refúgio para a vida selvagem.

Quanto à flora, a Graciosa é adornada por pastagens verdejantes e uma variedade de plantas endémicas dos Açores. A camarinha, a vidália ou a não-me-esqueças, são apenas algumas das muitas espécies que contribuem para a beleza natural da ilha.

O mar que rodeia a Graciosa é uma fonte de vida abundante, com águas cristalinas de um azul intenso que abrigam uma diversidade de vida marinha. Desde pequenos peixes coloridos até cetáceos majestosos, passando pelo coral-negro, este ambiente marinho é vital para o equilíbrio do ecossistema local.

A atividade vulcânica na ilha Graciosa foi crucial para a sua formação geológica e singularidade. Os vestígios vulcânicos moldam a paisagem, criando locais únicos como a Caldeira, a Furna do Enxofre, e a Caldeirinha, que são fontes de interesse turístico e científico, enriquecendo a ilha.

Tal como com as outras ilhas do arquipélago dos Açores, visitar esta ilha é conhecer um importante património geológico, composto por locais de interesse científico, pedagógico e turístico.

Preservar espaços naturais como a ilha Graciosa é fundamental na luta contra as alterações climáticas. Esses ecossistemas desempenham um papel crucial na regulação do clima global, absorvendo carbono da atmosfera e fornecendo habitats essenciais para a vida selvagem. Ao protegermos estes tesouros naturais, estamos também a proteger o nosso planeta e as futuras gerações.

Brevemente na SIC.









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10 anos de documentários ao redor do mundo

Paulo Ferreira com Sir David Attenborough

Já se passaram 10 anos de viagens pelo mundo. O meu trabalho ao nível da fotografia, vídeo e realização de documentários de natureza, foi marcado por uma profunda ligação com a vida selvagem e os ambientes mais remotos. Tentei que cada clique capturasse a essência da diversidade natural, desde vastas florestas como por exemplo no Chile, na Argentina e na Nova Zelândia, até paisagens geladas e montanhas intocadas na Islândia e na Noruega, incluindo os Açores e Portugal continental. Esses projetos não só documentaram a beleza do nosso planeta, mas também trouxeram à tona a urgência da sua conservação. Pelo caminho encontrei pessoas fantásticas ao redor do mundo, de entre os quais realço Sir David Attenborough, com quem tive uma conversa que recordarei para sempre. Através das minhas objetivas, procurei consciencializar as pessoas sobre a importância de preservar esses ecossistemas para as futuras gerações, unindo arte e ativismo ambiental.




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Infinito – Um olhar deslumbrante sobre a Via Láctea e o Universo

Infinito

Explorando o Infinito: Um olhar deslumbrante sobre a Via Láctea e o Universo. Este é um filme realizado com planos de timelapse noturnos e que fui compilando ao longo dos anos em vários pontos do mundo.  Para mim, olhar o universo é uma espécie de felicidade. Pois somos felizes quando procuramos alcançar os nossos sonhos e aspirações, os quais dão significado à nossa vida, como no caso da fotografia e em particular da técnica de timelapse utilizada para realizar este vídeo. Mesmo quando são ou parecem absurdos ou sem sentido e, muitas vezes, nos levam a nada mais, nada menos, do que empurrar uma pedra colina acima, dia após dia, à semelhança do “Mito de Sísifo” de Albert Camus. 
Agarrar-me à esperança, encontrar uma justificação para a vida, é o que me move.

Veja o vídeo, aqui: INFINITO ou clique na imagem em cima.

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Breve História da Humanidade

Breve história da humanidade

Breve História da Humanidade, é um vídeo de cerca de 6 minutos que tem por finalidade sensibilizar as pessoas para a atual problemática ambiental.
A crise ambiental atual é um dos maiores desafios que a humanidade enfrenta. O desmatamento, a poluição e o aquecimento global têm causado impactos devastadores nos ecossistemas e na biodiversidade. O consumo excessivo de recursos naturais, assim como da retirada do subsolo de petróleo e carvão, impulsionado pelo crescimento populacional e pelo modelo económico insustentável, agrava ainda mais essa situação. As mudanças climáticas resultam em eventos extremos, como secas, inundações e incêndios florestais, que afetam milhões de pessoas. É urgente que governos, empresas e sociedade civil unam esforços para adotar práticas sustentáveis, promover a preservação ambiental e garantir um futuro saudável para as próximas gerações.

Sabemos de onde vimos mas não sabemos para onde vamos.

Veja o vídeo aqui: Breve História da Humanidade

Versão Inglesa no Youtube

Realização e narrativa de Paulo Ferreira.

Redação e locução de Eduardo Rêgo.

Musica de André Barros.

Breve historia da humanidade

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